Um silêncio
ensurdecedor percorria as ruas da pacata Porto União/SC. Antes motivo de
disputa judicial entre Paraná e Santa Catarina, a cidade, irmã gêmea de União
da Vitória/PR, vivia dias mais calmos, passados quase 16 anos do fim da refrega
cabocla na região. Era uma noite invernal; a neblina baixava espessa, e o único
som vinha dos latidos de um cão de rua.
Dois homens
alcoolizados percorriam a famosa Avenida Sete de Setembro, no centro da cidade
catarinense. Ambos eram pescadores e moravam em casebres na barranca do grande
Rio Iguaçu. Bebiam para esquecer o cansaço e as dores do mundo. Rompiam o
silêncio com um cantarolar estridente, que já começava a irritar os moradores.
Contudo, um deles passou a gargalhar alto e caiu sentado no chão, agarrado
apenas ao seu litro de vinho barato. Enquanto tentava se levantar e murmurava
coisas sem sentido, o bêbado percebeu que seu amigo agia de forma estranha.
— Carlos! —
chamou ele, com a voz trôpega. — Que diacho cê viu, home? Parece que viu
assombração.
— Mas tô
achando que vi mesmo, hein… óia lá — respondeu Carlos, apontando.
Edevaldo teve
um súbito arrepio na espinha antes mesmo de entender para onde o amigo
apontava. Semicerrou os olhos, tentando se firmar em pé. Carlos já nem parecia
bêbado. Edevaldo forçou mais a vista, mas não enxergou nada. Ainda assim, o
arrepio lhe gelou as mãos, e o frio, antes contido pelo álcool, voltou de forma
avassaladora.
Mesmo com
medo, os dois seguiram subindo pela avenida. Carlos não dizia uma palavra;
parecia que, após apontar, sua língua fora arrancada e o brilho de seu rosto,
apagado. Ao observá-lo melhor, agora fora da sombra do chapéu, Edevaldo
percebeu sua palidez. Assustou-se. Os dois caminhavam lentamente, e Edevaldo,
tentando se recompor, adiantou-se alguns passos. O andar, antes incerto,
tornara-se firme, como se a bebida tivesse evaporado junto com a neblina.
Depois de
alguns metros, Carlos segurou o braço do amigo e, um pouco mais corado,
conseguiu dizer:
— Eu não sei o
que eu vi…, mas não era coisa boa.
Sem palavras,
Edevaldo apenas assentiu, fingindo uma tranquilidade que não sentia. Ambos
tinham visto pouco — ou nada —, mas o aperto no peito, misturado ao medo, dizia
muito sobre aquele momento. Nem perceberam quando o vinho, antes companheiro e
coragem líquida, já não estava mais ali.
Ao se
aproximarem de uma esquina, sentiram-se ligeiramente mais calmos. A cor voltava
ao rosto de Carlos, e Edevaldo respirou fundo. Ainda assim, o peso no peito
persistia. Foi então que, ao dobrarem a esquina, avistaram um homem parado no
meio da rua.
Ele usava
chapéu, tinha uma barba branca, e seus olhos permaneciam ocultos pela aba. As
roupas, puídas, pareciam de outro tempo. Ficava imóvel, como se aguardasse a
chegada dos dois. À medida que se aproximavam, um arrepio profundo e constante
tomou conta deles. Não era apenas medo: ambos começaram a compreender que
aquele homem não pertencia àquele lugar — talvez, nem a aquele mundo.
Apesar do
pavor, a curiosidade falou mais alto. A neblina dificultava enxergar melhor o
estranho. De repente, uma ventania surgiu, obrigando-os a cobrir o rosto e
segurar os chapéus. Quando conseguiram olhar novamente, o homem havia
desaparecido.
— Carlos… —
tentou dizer Edevaldo.
Mas, ao
virar-se, percebeu que o amigo também havia sumido.
O desespero o
tomou por completo.
Edevaldo saiu
correndo pela neblina, rompendo aos gritos o silêncio fúnebre que havia surgido
com a misteriosa figura. Chamava por Carlos, mas não havia resposta. Tomado
pelo medo, desistiu da noite de boemia e decidiu voltar para casa. Caminhava
apressado, tentando chegar vivo — ou ao menos encontrar o amigo são e salvo. O
corpo gelado, a alma em sobressalto, os sentidos apontavam para algo
profundamente obscuro.
Edevaldo não
dormiu naquela noite.
Sozinho em seu
casebre, embebido pelo silencio ensurdecedor e pelo movimento das águas próximos
a sua janela, ele permanecia inquieto, incapaz de compreender o que havia
acontecido. Já perto do amanhecer, exausto e vencido pelo frio e pelo medo,
adormeceu. Em sonhos, viu novamente o homem — como se viesse buscá-lo. Era um
sonho escuro, sujo, doloroso. Assim permaneceu por horas, até ser despertado
por três batidas fortes na porta.
Assustado,
acordou suado, confuso, misturando sonho e realidade.
Ao abrir,
deparou-se com Justina, mãe de Carlos, em lágrimas.
Desesperado,
Edevaldo temeu o pior.
A mulher,
aflita, contou que o filho estava desaparecido havia dias e fora encontrado
morto no rio Iguaçu, próximo à barranca. Chocado, ele afirmou que estivera com
Carlos na noite anterior — o que não fazia sentido. Justina, incrédula,
respondeu que isso era impossível: o filho estava sumido havia três dias.
Edevaldo
tentou juntar as peças, mas não conseguia distinguir o que era real e o que era
delírio. Estaria enlouquecendo? A noite anterior fora um sonho? Carlos
realmente estivera ali? E quem era aquele homem?
Os anos
passaram, e ele nunca mais viu a figura na neblina. Ainda assim, por muitas
noites, sonhou com aquele ser.
Passou a vida
afirmando ter estado com Carlos e vivido tudo aquilo. Talvez nunca tenha
compreendido o que ocorreu naquela noite obscura. Sua história chegou aos
jornais, transformando-se em relato estranho, entre o factual e o lendário.
Mas Edevaldo
jamais encontrou respostas.
Ou talvez
tenha encontrado — no fim, no instante de sua morte.
Autor: Arthur Luiz Peixer (escrito em 24 de abril de 2026).

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