sexta-feira, 24 de abril de 2026

Sessão Contos: O FANTASMA DA 7

Um silêncio ensurdecedor percorria as ruas da pacata Porto União/SC. Antes motivo de disputa judicial entre Paraná e Santa Catarina, a cidade, irmã gêmea de União da Vitória/PR, vivia dias mais calmos, passados quase 16 anos do fim da refrega cabocla na região. Era uma noite invernal; a neblina baixava espessa, e o único som vinha dos latidos de um cão de rua.

Dois homens alcoolizados percorriam a famosa Avenida Sete de Setembro, no centro da cidade catarinense. Ambos eram pescadores e moravam em casebres na barranca do grande Rio Iguaçu. Bebiam para esquecer o cansaço e as dores do mundo. Rompiam o silêncio com um cantarolar estridente, que já começava a irritar os moradores. Contudo, um deles passou a gargalhar alto e caiu sentado no chão, agarrado apenas ao seu litro de vinho barato. Enquanto tentava se levantar e murmurava coisas sem sentido, o bêbado percebeu que seu amigo agia de forma estranha.

— Carlos! — chamou ele, com a voz trôpega. — Que diacho cê viu, home? Parece que viu assombração.

— Mas tô achando que vi mesmo, hein… óia lá — respondeu Carlos, apontando.

Edevaldo teve um súbito arrepio na espinha antes mesmo de entender para onde o amigo apontava. Semicerrou os olhos, tentando se firmar em pé. Carlos já nem parecia bêbado. Edevaldo forçou mais a vista, mas não enxergou nada. Ainda assim, o arrepio lhe gelou as mãos, e o frio, antes contido pelo álcool, voltou de forma avassaladora.

Mesmo com medo, os dois seguiram subindo pela avenida. Carlos não dizia uma palavra; parecia que, após apontar, sua língua fora arrancada e o brilho de seu rosto, apagado. Ao observá-lo melhor, agora fora da sombra do chapéu, Edevaldo percebeu sua palidez. Assustou-se. Os dois caminhavam lentamente, e Edevaldo, tentando se recompor, adiantou-se alguns passos. O andar, antes incerto, tornara-se firme, como se a bebida tivesse evaporado junto com a neblina.

Depois de alguns metros, Carlos segurou o braço do amigo e, um pouco mais corado, conseguiu dizer:

— Eu não sei o que eu vi…, mas não era coisa boa.

Sem palavras, Edevaldo apenas assentiu, fingindo uma tranquilidade que não sentia. Ambos tinham visto pouco — ou nada —, mas o aperto no peito, misturado ao medo, dizia muito sobre aquele momento. Nem perceberam quando o vinho, antes companheiro e coragem líquida, já não estava mais ali.

Ao se aproximarem de uma esquina, sentiram-se ligeiramente mais calmos. A cor voltava ao rosto de Carlos, e Edevaldo respirou fundo. Ainda assim, o peso no peito persistia. Foi então que, ao dobrarem a esquina, avistaram um homem parado no meio da rua.

Ele usava chapéu, tinha uma barba branca, e seus olhos permaneciam ocultos pela aba. As roupas, puídas, pareciam de outro tempo. Ficava imóvel, como se aguardasse a chegada dos dois. À medida que se aproximavam, um arrepio profundo e constante tomou conta deles. Não era apenas medo: ambos começaram a compreender que aquele homem não pertencia àquele lugar — talvez, nem a aquele mundo.

Apesar do pavor, a curiosidade falou mais alto. A neblina dificultava enxergar melhor o estranho. De repente, uma ventania surgiu, obrigando-os a cobrir o rosto e segurar os chapéus. Quando conseguiram olhar novamente, o homem havia desaparecido.

— Carlos… — tentou dizer Edevaldo.

Mas, ao virar-se, percebeu que o amigo também havia sumido.

O desespero o tomou por completo.

Edevaldo saiu correndo pela neblina, rompendo aos gritos o silêncio fúnebre que havia surgido com a misteriosa figura. Chamava por Carlos, mas não havia resposta. Tomado pelo medo, desistiu da noite de boemia e decidiu voltar para casa. Caminhava apressado, tentando chegar vivo — ou ao menos encontrar o amigo são e salvo. O corpo gelado, a alma em sobressalto, os sentidos apontavam para algo profundamente obscuro.

Edevaldo não dormiu naquela noite.

Sozinho em seu casebre, embebido pelo silencio ensurdecedor e pelo movimento das águas próximos a sua janela, ele permanecia inquieto, incapaz de compreender o que havia acontecido. Já perto do amanhecer, exausto e vencido pelo frio e pelo medo, adormeceu. Em sonhos, viu novamente o homem — como se viesse buscá-lo. Era um sonho escuro, sujo, doloroso. Assim permaneceu por horas, até ser despertado por três batidas fortes na porta.

Assustado, acordou suado, confuso, misturando sonho e realidade.

Ao abrir, deparou-se com Justina, mãe de Carlos, em lágrimas.

Desesperado, Edevaldo temeu o pior.

A mulher, aflita, contou que o filho estava desaparecido havia dias e fora encontrado morto no rio Iguaçu, próximo à barranca. Chocado, ele afirmou que estivera com Carlos na noite anterior — o que não fazia sentido. Justina, incrédula, respondeu que isso era impossível: o filho estava sumido havia três dias.

Edevaldo tentou juntar as peças, mas não conseguia distinguir o que era real e o que era delírio. Estaria enlouquecendo? A noite anterior fora um sonho? Carlos realmente estivera ali? E quem era aquele homem?

Os anos passaram, e ele nunca mais viu a figura na neblina. Ainda assim, por muitas noites, sonhou com aquele ser.

Passou a vida afirmando ter estado com Carlos e vivido tudo aquilo. Talvez nunca tenha compreendido o que ocorreu naquela noite obscura. Sua história chegou aos jornais, transformando-se em relato estranho, entre o factual e o lendário.

Mas Edevaldo jamais encontrou respostas.

Ou talvez tenha encontrado — no fim, no instante de sua morte.


Autor: Arthur Luiz Peixer (escrito em 24 de abril de 2026). 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

ÓPERA XUCRÁ CABOCLA: TEATRO E VIVÊNCIA NO CONTESTADO

No dia 23 de outubro de 2025, durante a celebração da Semana do Contestado, no município de Lebon Régis (SC), ocorreu a exibição da Ópera Xucra Cabocla, uma parceria entre a diretora Márcia Paraiso, a equipe da Plural Filmes, a Escola de Educação Básica 30 de Outubro e a Associação Cultural Coração do Contestado. Nesse espetáculo, rememora-se a queda da cidade santa de Santa Maria, última das vilas caboclas, invadida e destruída por forças militares na Páscoa de 1915, ao final do conflito do Contestado.

A escolha de representar o episódio por meio da atuação de crianças e adolescentes da EEB 30 de Outubro, utilizando-se do cenário teatral, da iluminação e da musicalidade, foi extremamente acertada. Afinal, a região do Contestado é reconhecida por suas festas, religiosidade e canções — elementos que atravessam as décadas e compõem uma memória que, embora tenha sido gradualmente esquecida, hoje é retomada com vigor.

Destaca-se, ainda, o papel articulador da Associação Cultural Coração do Contestado, que atuou ativamente na captação de recursos e na coordenação do trabalho coletivo. A entidade foi responsável, entre outras ações, pela produção dos belíssimos cenários, pela organização do espaço de exibição e pela mobilização para que as escolas do município pudessem assistir à peça, além de convidar diversos produtores culturais da região para prestigiar o espetáculo.

Além disso, uma ópera grandiosa como essa, marcada por uma proposta ousada, evidenciou o envolvimento da comunidade, da escola, de instituições públicas e de inúmeros colaboradores externos — entre estudantes, docentes e artistas de várias localidades, tanto de dentro quanto de fora do território contestado. Isso demonstra que a lembrança do conflito não pertence apenas ao passado, mas permanece carregada de significados no presente, reafirmando a importância de sua representação.

Presentificar o Contestado por meio da arte é reafirmar a memória de um povo historicamente marginalizado pelo Estado e que agora reivindica seu espaço — antes ocupado quase exclusivamente por descendentes de europeus na região. O caboclo, sua cultura, práticas e vivências não residem no passado, mas estão profundamente enraizados no presente, promovendo identificação, conexão e o resgate das origens desse território, incluindo as contribuições de povos negros e indígenas.

As luzes, a música e o talento das crianças de origem cabocla constituem um marco simbólico dessa retomada e da reivindicação de uma memória coletiva. O espetáculo resgata o espaço público e cultural do município, tornando-se um exemplo de incentivo à valorização histórica e artística de toda a região. O cuidado com os detalhes — como a reconstrução das moradias, dos instrumentos, das acomodações e das representações cênicas — revela a relevância desse movimento na construção da identidade dos diversos sujeitos envolvidos na criação da obra.

Desse modo, é fundamental destacar que memória e história exercem poder e influência. Retomar uma narrativa comunitária é demonstrar a força coletiva de um povo que busca afirmar-se e ressignificar sua trajetória. A reinterpretação dessa narrativa constitui, portanto, um exercício do presente: utiliza o conflito do Contestado como instrumento para compreender-se no agora, com todas as suas complexidades, e para debater temas contemporâneos como desigualdade social, violência de Estado, desemprego, misoginia, racismo e discriminação — questões ainda persistentes em nossa região.

Chamar de “xucra” a Ópera Cabocla é, também, um gesto de ressignificação: um termo outrora pejorativo torna-se símbolo de resistência e orgulho daqueles que antes lutaram por existir e que, ainda hoje, continuam lutando para viver com dignidade.


Fotos da exibição do dia 23 de outubro no período da tarde (acervo do autor)











quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Considerações sobre as Ilustrações do Combate de Rio das Antas de Hassis

    Em 1984, o artista Hassis (1926–2001) produziu mais de 78 desenhos a nanquim em bico de pena. Como afirma Marli Auras, “esse precioso conjunto de desenhos trata de sintetizar, com objetividade, a perspectiva pela qual Hassis compreendeu a formação da Guerra do Contestado” (Hassis & Auras, 2023, p. 9). Essas ilustrações foram elaboradas como esboços para a criação de um painel de 36 m², dividido em sete módulos, nos quais o artista construiu uma sequência narrativa sobre o desenrolar do conflito do Contestado. Originalmente, o painel foi exposto no Terminal Rita Maria, em Florianópolis (SC), e posteriormente incorporado ao acervo do Museu do Contestado, na cidade de Caçador (SC), onde permanece até hoje.

Partes do painel de 36m² intitulado "Contestado - Terra Contestada" de Hassis (Museu Histórico e Antropológico da Região do Contestado - Caçador/SC - foto acervo do autor).

Dessa forma, o presente texto tem por objetivo analisar duas das ilustrações em nanquim realizadas por Hassis para a execução desse trabalho: Combate de Rio das Antas – Jagunços atacam colonos e Combate de Rio das Antas – Queima de cadáveres dos jagunços.

Assim como as outras 76 ilustrações, essas imagens estão reunidas na recente obra publicada pela Editora da UFSC, Guerra do Contestado Ilustrada, escrita por Marli Auras. Na publicação, cada episódio do conflito é apresentado em textos curtos, acompanhados das ilustrações que materializam visualmente os acontecimentos narrados. No trecho em que se encontram os desenhos analisados neste estudo, destacam-se os principais elementos do evento: a morte de Francisco Alonso de Souza e a queima dos corpos dos “jagunços”. O episódio representado é descrito tanto por Peixoto (1920) quanto por Queiroz (1981), e refere-se a um dos ataques ocorridos durante a chamada “ofensiva rebelde”, fase em que, após a reorganização do movimento caboclo do Contestado em várias cidades santas, houve um avanço contra as forças governamentais e os coronéis. Tal ofensiva configurou uma resposta direta ao massacre ocorrido em Taquaruçu (fevereiro de 1914) e aos sucessivos ataques a Caraguatá (entre março e maio do mesmo ano).

Nesse contexto, o avanço caboclo ficou marcado pelo assalto a Curitibanos, pelo ataque à madeireira de São João dos Pobres (atual Calmon/SC) e por sucessivas incursões em diversas vilas, nas quais os ataques eram previamente anunciados com o intuito de evitar mortes em combates. Rio das Antas, portanto, foi alvo de um desses ataques, que se destacou pela resistência dos colonos e pela morte do líder caboclo Chiquinho Alonso.

Hassis retrata, no desenho do ataque jagunço (figura 1), os imigrantes em primeiro plano, sugerindo que estavam em posição de emboscada, aguardando o ataque dos caboclos do Contestado. Além daqueles próximos à cerca, observa-se, dentro da casa, dois imigrantes representados. Chama a atenção o fato de que não aparecem apenas homens, mas também mulheres — duas delas em primeiro plano — que aparentam ser crianças ou adolescentes empunhando armas.

Figura 1: Imagem do desenho em nanquim de Hassis intitulado "Combate do Rio das Antas - Jagunços Atacam Colonos" (1984 - Fonte: Acervo Estação Contestado).


    Essa representação pode estar associada ao relato feito por Peixoto e Queiroz sobre uma jovem armada com uma carabina que teria sido morta durante o ataque, episódio que, na memória popular do município de Rio das Antas, causa profunda comoção. Tal narrativa foi amplamente utilizada para reforçar a imagem dos seguidores de José Maria como cruéis e violentos. Ao fundo, nota-se a ambientação rural, com plantações e araucárias que simbolizam o território dos colonos. No centro da composição, destacam-se bandeiras com cruzes, representando os caboclos surpreendidos pelos imigrantes.

Na segunda imagem (figura 2), ambientada no mesmo local do conflito, mas agora vista da perspectiva da casa, observam-se, ao fundo, os corpos dos caboclos sendo queimados. Segundo Queiroz (1981), os corpos dos insurgentes teriam sido colocados em uma grande fogueira, enquanto os dos imigrantes foram devidamente sepultados. Simbolicamente, essa diferença pode representar o desprezo pelos inimigos, considerados indignos de um enterro cristão. Tal gesto sugere a desumanização dos caboclos — talvez uma tentativa de esvaziar a culpa por suas mortes, justificando sua execução como moralmente aceitável. Ainda assim, a maioria dos colonos fugiu do local, temendo as possíveis consequências legais de suas ações.

Figura 2:  Imagem do desenho em nanquim de Hassis intitulado "Combate do Rio das Antas – Queima dos Cadáveres Jagunços" (1984 - Fonte: Acervo Estação Contestado).


Dessa maneira, o presente texto buscou levantar diferentes hipóteses sobre a construção dessas ilustrações. As questões e interpretações aqui apresentadas suscitam análises mais profundas, que poderão ser desenvolvidas em pesquisas futuras. Destaca-se, portanto, que a obra de Hassis representa um marco importante na compreensão da Guerra do Contestado, pois, por meio de sua arte, o autor materializou a violência e o processo de marginalização vividos pelos caboclos. Interpretar suas imagens hoje permite reconhecer nelas não apenas um valor estético e histórico, mas também pedagógico — ao estimular a reflexão crítica e a análise simbólica de um passado ainda presente na memória coletiva da região.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

As Cidades Santas do Contestado

    As experiencias sociais e religiosas da região do Contestado nos permitem entender a presença dos sujeitos, a ocupação do território e a relação destes elementos com a vida cotidiana dos caboclos no espaço compartilhado que se formou. Sob a égide das leis pregadas pelos monges João e José Maria, as cidades santas demonstram possuir diversos elementos que são responsáveis por auxiliar na compreensão do movimento social sertanejo do início do século XX.

    Ao analisar a história do conflito a partir da formação das vilas santas, é possível alicerçar alguns motivos que levaram os caboclos a reunirem-se. Dessa forma, o objetivo desse texto é pontuar quais elementos dessas cidades são elencados no texto escrito por Delmir Valentini (2022) como características gerais, comuns a todas as cidades santas. 

    Primeiramente, destacam-se a formação dos quadros santos. Como uniformidade dos redutos, os caboclos reuniam-se na praça central, normalmente próximos a igreja, a fim de formar uma estrutura em formato quadrado, demarcada por bandeiras e cruzes. Essa abordagem era necessária para organizar a forma como eram feitas as orações, passadas as ordens e divididas as tarefas. Nesse Há uma forte hierarquia religiosa. Além disso, cabe ressaltar a importância das virgens, como Maria Rosa, que no fim também assume plenos poderes como líder de briga, estando a frente de Caraguatá e Bom Sossego.

    Como característica central dessas formações populacionais era a escolha dos vales. Nesses locais de difícil acesso os caboclos se organizavam de maneira isolada, dificultando o acesso para ataques de militares. A estratégia do general Setembrino de Carvalho, durante o ano de 1915, através do cercamento, coloca os caboclos em situação de fragilidade frente ao que antes era uma qualidade. Ao dificultar o acesso de bens de consumo, a fome e a moléstia tornam-se questão chave para sufocar cada vez mais os sujeitos marginalizados do Contestado.

    Apesar de tudo, a cidade santa apresentava-se como uma proposta de encontrar uma terra sagrada, sem males, de vida compartilhada, onde todos eram iguais. Os interesses que surgiram naquele período, baseados na exploração dos sujeitos e na violência do Estado contra os mais pobres, identificaram nessa busca por liberdade uma forma de afronta, vestida pelos poderosos como fanatismo. Portanto, ao enfrentar as forças oficiais, os caboclos significaram algo que deveria ser destruído aos olhos dos mais ricos, uma força coletiva que deveria extinguida a qualquer custo.


Quadro "Reduto" de Dea Reichmann. A artista reinterpreta como era a organização das casas nas cidades santas. Veja que as cruzes na parte central demarcam o que seria o "Quadro Santo". (Fonte: UnC)


Representação de um quadro santo (Queiroz, 1977).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: 

VALENTINI, Delmir. Cidades Santas ou redutos: igualdade, fé e fraternidade. IN: RODRIGUES, Rogério Rosa; MACHADO,Paulo Pinheiro; TOMPOROSKI, Alexandre Assis; VALENTINI, Delmir José; ESPIG,Márcia Janete. A Guerra do Contestado Tintim por Tintim. São Paulo, Editora Letra eVoz, 2023. (p. 229 – 237). 

quinta-feira, 9 de maio de 2024

A REPRESENTAÇÃO DOS NEGROS NOS QUADRINHOS: SUPER CHOQUE E A MILLESTONE MEDIA

     Os quadrinhos sempre refletiram os dilemas e as lutas sociais da época em que foram constituídos. Desde os primeiros dias das histórias em quadrinhos até a atualidade, essas narrativas coloridas têm sido um espelho para diversos eventos históricos ocorridos na sociedade contemporânea.

    Nos anos 1960 e 1970, uma era marcada pelo fervor do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, surgiram personagens como Luke Cage e a série "X-Men", ambos refletindo as lutas e os desafios enfrentados pelas minorias. Luke Cage, o herói de aluguel, representava a ascensão dos negros em uma sociedade que tentava mantê-los à margem. Já os mutantes da série "X-Men" eram uma metáfora poderosa para as experiências daqueles marginalizados por causa de sua diferença, uma analogia clara à luta contra o racismo e a discriminação.

    Além dos diversos debates e avanços produzidos durante as décadas de 1960 e 1980, foi nos anos 1990, com o surgimento da Milestone Media, que se proporcionou um maior debate dentro do mundo corporativo dos quadrinhos ocidentais. Fundada por Dwayne McDuffie, um roteirista negro, A editora tinha como proposito dar voz e espaço para artistas de minorias étnicas. A Milestone foi um ponto de diversidade em um mar de homogeneidade do mercado estadunidense dos quadrinhos. Seus personagens, como "Hardware", "Icon" e o icônico "Super Choque", não apenas representavam uma multiplicidade de origens étnicas, mas também abordavam questões sociais urgentes, como racismo e violência urbana.

McDuffie no final dos anos 1980 (Fonte: Wikipédia).

    Super-choque é um dos personagens de maior sucesso da Millestone Media. A série produzida pela Warner em 2003 traz não somente um jovem periférico como personagem principal, mas suscita debates relacionados ao porte de armas, violência, bullying, racismo, etc. Muito embora o recorte de análise aqui proposto seja o das histórias em quadrinhos dos EUA, cabe ressaltar que a geração millenials no Brasil cresceu assistindo não só super choque, como Liga da Justiça, série a qual Dwayne McDuffie fez parte. Nesse sentido, é importante entender as HQs como um reflexo da cultura, os quais foram problematizados diversas vezes e contribuem para tornar a obra mais contemporânea do que nunca.

Super-Choque (Fonte: O Hoje).
   
 O trabalho de McDuffie torna-se um caminho para compreender como as HQs não são apenas entretenimento, mas uma forma de trazer debates políticos e sociais relacionados a representatividade, resistência, lutas de classes e a opressão colonial. A representação de personagens negros nos quadrinhos é a ponta do iceberg de toda uma indústria, que muitas vezes usa dessas pautas com o intuito de obtenção de lucro e exploração do trabalho de roteiristas, desenhistas e demais profissionais que produzem as histórias veiculadas por grandes corporações.  

Para saber mais:


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

V ACAMPAMENTO CABOCLO DO CONTESTADO: TIMBO GRANDE/SC

     Viver na região do Contestado e respirar a História do conflito é um modo de entender como no tempo presente o movimento sertanejo não desapareceu. Diante dessa constatação, deve-se compreender que a Guerra ocorrida durante o período republicano, precisamente entre 1912 e 1916 nada mais é do que um movimento de resistência que reverberou de uma cultura cabocla do compartilhamento e doação mutua entre as pessoas.
    Por isso, diversas ocasiões nessa região demonstram o papel popular e caboclo que possui o movimento sertanejo do Contestado. E mais: é possível ainda perceber as reverberações das vivências da religiosidade cabocla nos rincões mais afastados desses locais. O acampamento caboclo na acolhedora Timbó Grande/SC, cidade de pouco mais de 7 mil habitantes (segundo dados do governo do Estado de Santa Catarina) é um desses momentos.
    A cidade é próxima ao conhecido "Vale da Morte", local onde ficava o reduto de Santa Maria, palco de uma das mais violentas chacinas praticadas pelo governo brasileiro durante o conflito, que causou a destruição de cerca de 5000 casas. O emblemático vale é o ponto de partida das atividades do evento, com a caminhada Jorge Mattoso. foram 10 km de caminhada por morros, caminhos fechados pela mata e pelo alto do Vale, que permitia obter uma bela vista da cidade de Timbó Grande.


Vista do "Vale da Morte", local onde ficava o reduto de Santa Maria. (Acervo do autor, outubro de 2021).

Vista do morro da Antena, a cidade de Timbó Grande/SC está ao fundo. (Acervo do autor, outubro de 2021).

    A sensação de vivenciar a Guerra do Contestado e seus sítios Históricos é indescritível. Olhar para um local e imaginar tudo que aconteceu e perceber como isso impactou naquele local é instigante e intrigante. Além de todo processo de ver e sentir o fato Histórico, a reverberação cultural era presente. Comidas caboclas, acolhimento coletivo e respeito entre todos os indivíduos são a marca registrada do evento, que não cobrou nenhum centavo por toda comida compartilhada.

    O acampamento se aglutina no rancho do Cafu, cerca de 5 km do centro da cidade de Timbó Grande. Lá, foram realizadas apresentações culturais, jantar e café caboclo e onde todas as pessoas puderam organizar suas barracas e dormir sob o céu do Contestado. Um frio serrano, somado ao calor da acolhida foram os locais ideais para o lançamento da obra "Adeodato: a Redenção" de Nilson Cesar Fraga. 
    O professor, pesquisador sobre o Contestado a mais de 20 anos, lança o terceiro livro da trilogia sobre um intrigante personagem desse movimento, o caboclo Adeodato Leonel Ramos, o Leodato, último líder do conflito, que por décadas foi considerado o próprio demônio pelas narrativas militares do movimento do Contestado. A ideia do autor é familiarizar a figura de um homem destruído pela violência e pela guerra, no limiar entre uma vitima e um bandido, simbolizando um elemento único do Contestado: não há vilões e mocinhos, somente pessoas lutando pelo seu direito de existir diante do governo republicano conservador brasileiro.
    Há uma simbologia construída nesse ato de lançamento da obra: se busca levar as narrativas do contestado a todas as pessoas, através da linguagem literária e imaginativa. O Contestado pode ser saboreado também pela imaginação, religiosidade, cultura e contação de histórias, como uma narrativa brasileira, trazendo o sofrimento somado a luta e resistência. 
    No segundo dia, o ápice foi a missa cabocla, celebrada pela manhã, com ampla presença da comunidade, juntando elementos tradicionais e a consagração ao monge João Maria, devoção popular não reconhecida pelo catolicismo clerical, mas vista pela comunidade com bons olhos. Essa junção mostra como a ideia de comunhão entre as pessoas é abraçada e comemorada por todos. Além da celebração, o almoço caboclo e o festival da canção fecharam o belíssimo evento.
    De toda maneira, o que é visto é algo além de um simples acampamento. Se percebe a comunhão de diversas pessoas de várias cidades diferentes que juntas compartilham. Todos que tem e que não tem, como o monge dizia, trocam e dividem experiências, vivencias e entendem o movimento do Contestado como um ato cultural e social de resistência, para além de uma guerra genocida. O conflito bélico é fundamental para compreender o apagamento e busca por uma espécie de limpeza étnica (que se desdobra por décadas após o conflito), porém o Contestado vive e resiste nas pessoas, caboclas, presentes em situações magicas como essa, em que o Contestado não só visto e sentido, mas é também dividido.


Café da manhã caboclo, realizado na chegada de Timbó Grande/SC (Acervo do autor, outubro de 2021).

Professor Nilson Cesar Fraga explanando sobre o "Vale da Morte" e o movimento do Contestado durante o almoço caboclo (Acervo do autor, outubro de 2021).

Lançamento do livro "Adeodato a Redenção" de Nilson Cesar Fraga. (Acervo do autor, outubro de 2021).


VEJA MAIS:




sexta-feira, 31 de julho de 2020

MULTICULTURALISMO NO CONTESTADO

MULTICULTURALISMO E FILOSOFIA (Murilo Moraes Júnior)

    O multiculturalismo surge como um fenômeno social com a ideia de ‘pluralizar’ a cultura. Etimologicamente, Multi significa pluralidade ou muitos; enquanto que cultural, ou melhor, cultura, advém de criação humana.
    O multiculturalismo implica falar sobre o jogo das diferenças, cujas regras são definidas nas lutas sociais por atores que, por uma razão ou outra, experimentam o gosto amargo da discriminação e do preconceito no interior das sociedades em que vivem, tendo incidido sobre a necessidade de ressignificação de conceitos como direitos humanos, democracia e cidadania.
    
A discussão sobre do multiculturalismo questiona o conhecimento transmitido nas diversas instâncias produtoras e transmissoras de cultura, identificando etnocentrismos, visões estereotipadas de determinados grupos e buscando aberturas para a incorporação de uma pluralidade de vozes, de formas diversas de se construir e interpretar a realidade. As categorias teóricas do multiculturalismo permitem uma leitura de mundo a partir de procedimentos lógicos inerentes às culturas dominadas, produzindo, assim, um novo conhecimento e, por consequência, uma nova subjetividade descentrada e emancipada de valores supostamente superiores.

   
JÜRGEN HABERMAS (Fonte: Guia do Estudante abril)

    Nesse contexto, o filósofo Habermas, propõe uma teoria da racionalidade e da sociedade que centra as potencialidades utópicas de emancipação nas micro-revoluções do cotidiano e nas aprendizagens sociais de sujeitos, capazes de linguagem e ação, participantes de um mesmo mundo, o qual podem problematizar, tanto para buscar mais conhecimento, para combinar normas de convivência ou para expressar sua subjetividade de forma descentrada. Portanto, é por meio de intervenções concretas no mundo entre sujeitos utilizando corpo e palavra para tais intervenções que se estruturam novas possibilidades de racionalidade e de participação em esferas cada vez mais amplas da cultura, bem como de
participação na esfera pública.
    A partir desta constatação, Habermas desenvolveu sua Teoria da ação comunicativa, uma ética do discurso e uma filosofia política, no sentido de uma militância voltada para a busca de consensos que se realizam mediante aprendizagens sociais. É preciso aproximar o local do global pela compreensão e argumentação. Aprender a colocar-se no lugar do outro e cultivar a reciprocidade e a cooperação.


MULTICULTURALISMO NA REGIÃO DO CONTESTADO (Arthur Luiz Peixer e Karoline fin)

    Multiculturalismo enquanto teoria não é apenas uma categorização pura e simples que diferencia pessoas e suas origens. É um termo que apresenta historicamente a formação de uma sociedade a partir da miscigenação étnica e das influências de variadas culturas, como é o caso do Brasil. Assim, ele vai para além da formação étnica, buscando entender mais profundamente quais características culturais formaram um determinado povo. Portanto, o multiculturalismo visa entender as bases de formação de uma determinada sociedade, compreendendo seus diferentes grupos sociais e levando em consideração os aspectos de marginalização impostos sobre parte dela, que se desenvolvem a partir de um projeto de centralização do poder. 
    Desta maneira, o conceito de multiculturalismo amplia os debates sobre os projetos emancipatórios e leva em consideração o reconhecimento da luta contra as diferenças e as desigualdades, buscando construir diálogos relacionados à identidade cultural de diferentes grupos e a sua representatividade na formação de uma sociedade, propondo um novo ideal de cidadania.

   
Obra do pintor catarinense Willy Alfredo Zumblick (1953) retratando a heroína Maria Rosa (Fonte: appai.org)

    Ao elucidar esses elementos, percebemos que no território do Contestado, onde ocorreu uma guerra sangrenta entre 1912 e 1916, há uma disparidade social que é reflexo da ocorrência deste conflito e do modo de vida existente nessa região no final do século XIX e início do século XX. A entrada das empresas estrangeiras, Brazil Railway Co. (responsável pela construção da ferrovia) e da Southern Brazil Lumber & Colonization Co. (madeireira e colonizadora), que tinham como intuito trazer o “progresso” e o “desenvolvimento” aos olhos da economia e do processo de industrialização, somadas ao desmando dos coronéis, característico do período da Primeira República Brasileira (1889-1930), implicou na imposição de um modo de vida completamente diferente do que se tinha nas regiões Meio Oeste catarinense e Sudoeste paranaense. 
    Esta terra que era habitada já a gerações por indígenas, principalmente das etnias Guarani, Xokleng e Kaigang, pequenos posseiros de origem cabocla, descendentes de combatentes na revolução Farroupilha e Federalista, além dos primeiros imigrantes italianos e alemães, que viviam em sua grande maioria de pequenos roçados, criações e da venda sazonal da erva-mate como meio de subsistência, além de agregados e trabalhadores das grandes fazendas dos coronéis. Toda essa realidade sócio-cultural foi alterada com a chegada das grandes empresas e da “modernização” aparente que elas carregavam consigo. 
    Percebe-se, analisando a situação da região, que o grande latifúndio e o processo de industrialização levaram ao esmagamento dos modos de vida locais, o que vai, em certa medida, ocasionar o conflito, visto que gera a junção dessas minorias populacionais envoltas de uma religiosidade cabocla messiânica baseada na sobrevivência mútua. Esse aspecto acaba também por criar novos contornos, novos laços culturais caboclos. Entretanto, há que se destacar que ao projeto de industrialização somava-se um projeto colonizador, que atraiu para cá imigrantes, em sua maioria europeus, o que tornou a região ainda mais rica, cultural e etnicamente falando. Cabe destacar também que, para além das imigrações europeias, a região recebeu também nas décadas seguintes imigrantes asiáticos, como é o caso do município de Frei Rogério, berço da comunidade japonesa regional. 
    Porém, quando analisamos a construção do aspecto multicultural da região do Contestado, o que percebemos é uma valorização maior da imigração européia, vinda de um processo colonizador que expulsou e escanteou as populações locais, oriundas da miscigenação indígena, africana e europeia, os caboclos. Estes, que têm suas principais representações nas camadas mais pobres da sociedade contestada, apesar do silenciamento mantiveram e, em muitos casos resgataram, sua cultura, identidade e religiosidade, sendo o culto aos monges um dos exemplos mais diretos dessa realidade.


Caboclos "vaqueanos" contratados pela Lumber para caçar os revoltosos. (fonte: anovademocracia.com.br)

    Essa onda migratória europeia estabelece na região uma hegemonia, visto que as camadas mais ricas da população acabam por controlar o discurso cultural. Estas famílias encaixam o território Contestado no seu status quo, que tem como base os costumes europeus, além de contar com os moldes do capitalismo desenvolvimentista encabeçado pelas indústrias do grupo Farquhar. Estes elementos são em si contrários à realidade em que a região vivia antes do conflito, principalmente no que diz respeito ao uso da terra, esta, que foi arbitrariamente tomada das populações caboclas locais, vai se tornar não mais uma fonte de vida, mas uma fonte de renda, desmatada e desnutrida pelo reflorestamento sistemático da indústria madeireira. Da mesma maneira a cultura regional vai sendo desmantelada, apropriam-se costumes e reformulam-se tradições para que elas sejam cada vez mais brancas e europeizadas, enquanto as populações originárias, que desde antes do conflito já estavam marginalizadas pelo Estado brasileiro, permaneçam escondidas. Um grande exemplo deste processo foi, por exemplo, a mudança do nome da região turística a qual pertencemos, antes Vale do Contestado, hoje, Vale dos Imigrantes.
    O multiculturalismo enquanto teoria serve, nesse contexto, para identificar aspectos relativos a compreensão de grupos marginalizados, sendo a sociedade contestada um reflexo do domínio cultural da elite econômica que perdura e apagou das representações culturais da região a figura dos trabalhadores pobres dos campos contestados. Assim como a imigração europeia possui ampla representatividade cultural na região do Contestado, é necessário aceitar a pluralidade existente na mesma, principalmente quanto à identificação e a materialidade da cultura cabocla, retirando da mesma os estigmas que ainda carrega desde à época do guerra, tornando o povo caboclo parte da miscelânea de grupos que formam o sul do Brasil e colaborando na reconstrução da imagem nacional sobre a região do Contestado. 


REFERÊNCIAS

AURAS, Marli. Guerra do Contestado: a organização da Irmandade Cabocla. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1984.

DIESEL, Aline; SANTOS BALDEZ, Alda Leila; NEUMANN MARTINS, Silvana. Os princípios das metodologias ativas de ensino: uma abordagem teórica. Revista Thema, [S.l.], v. 14, n. 1, p. 268-288, fev. 2017. ISSN 2177-2894. Disponível em: <http://revistathema.ifsul.edu.br/index.php/thema/article/view/404>. Acesso em: 24 abr. 2020. doi:http://dx.doi.org/10.15536/thema.14.2017.268-288.404.

HABERMAS, Jurgen. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,1989.

KRETZMANN, Carolina Giordani. Multiculturalismo e Identidade Cultural: Comunidades Tradicionais e a Proteção do Patrimônio Comum da humanidade. Caxias do Sul, 2007.

OLIVEIRA, Cynthia Bisinoto Evangelista de; MOREIRA, Paula Cristina Bastos Penna (Orgs). Docência na socioeducação. Brasília: Universidade de Brasília, Campus Planaltina, 2014. Disponível em: https://cdnbi.tvescola.org.br/contents/document/publications/1449253233482.pdf. Acesso 24 abr. 2020.

SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 15ª ed, RJ: Forense, 1998, p. 234.


COMO CITAR ESSE ARTIGO:
FIN, Karoline. MORAES JÚNIOR, Murilo. PEIXER, Arthur Luiz. MULTICULTURALISMO NO CONTESTADO. In: Blog EnsinArthur. Disponível em:https://ensinarthur.blogspot.com/2020/07/multiculturalismo-no-contestado.html publicado em: 31 de julho de 2020. Acesso: [informar a data].


PARA ENTENDER MAIS:

- MULTICULTURALISMO




- GUERRA DO CONTESTADO: