terça-feira, 5 de maio de 2026

SESSÃO CONTOS: A MENSAGEIRA DA MORTE


As noites caíam com o pesar da morte e o horror da dor. A batalha se anunciava em meio à fé, à resistência e ao sofrimento de uma população que há muito padecia. No início do século XX, na região chamada de Contestado, havia surgido um homem santo que dizia curar e aliviar as dores do povo. Ninguém sabia de onde vinha José Maria.

Com um olhar duro, marcado por rugas profundas, barbas longas de um branco amarelado e vestindo roupas puídas, o velho homem — que trazia na cabeça um chapéu de pele de jaguatirica — guiava uma multidão. Pobres mortais entregues à própria sorte, cansados, desgastados pelo abandono e pela perda de tudo o que tinham, expulsos de suas casas e das terras onde viviam há tantos anos.

Entre as centenas que chegavam aos campos de Irani, havia crianças, velhos, homens e mulheres que se agarravam ao último recurso que lhes restava: a fé. Essa crença, representada pelo monge e por São Sebastião, sustentava a esperança daqueles abandonados. E ao longe, escondida na névoa, uma coruja observava tudo atentamente.

De penas claras, quase pálidas, olhar rígido e sereno, com olhos como esferas negras, a rasga-mortalha seguia seu cortejo. O nome curioso vinha de sua função: anunciar a morte. Nunca era recebida com afeto; ao ser vista, era espantada, como se isso pudesse evitar o destino que se aproximava. Sabia pouco sobre a vida, mas conhecia profundamente o fim. Seu lamento era cortante, um grito estridente, quase um gemido de agonia — um anúncio inevitável.

Ao observar aquele grupo, soube: a morte se aproximava. Carregava-a consigo nas asas. Sempre que pousava em algum lugar, alguém deixaria esta existência. Engana-se quem pensa que ela vinha buscar os mortos; sua função era anunciar o início da travessia.

Mas naquela noite seria diferente.

A multidão se reunia ao redor do fogo, tentando afastar o frio que cortava o mês de outubro. Havia uma tensão suspensa no ar. A coruja se aproximou lentamente e pousou no galho de uma árvore alta, observando o vozerio.

José Maria, o monge santo, repousava em uma clareira próxima, sentado sobre uma pedra. A coruja passou a observá-lo.

Em um voo curto, desceu e pousou diante dele.

Por um instante, o tempo pareceu suspenso. Um vento frio atravessou o espaço entre os dois. O homem demorou a notar sua presença, mas, quando a viu, sorriu.

A rasga-mortalha hesitou. Era a primeira vez que alguém não reagia com medo.

O homem a encarava com calma. A coruja permaneceu ali — algo incomum, quase contra sua própria natureza. Em qualquer outra noite, já teria lançado seu grito e rasgado o céu escuro. Mas não desta vez.

— Eu já te esperava há muito tempo — disse o homem, com voz serena. — Sabia que logo você chegaria. Talvez minha função tenha terminado por aqui… — fez uma breve pausa, levantando-se — ou talvez eu ainda seja mais útil do outro lado.

A pequena coruja permaneceu imóvel, intrigada com os devaneios do velho.

— Será amanhã, não é? — continuou ele. — E o pior… serão anos de dor e sofrimento. Mas, de alguma forma, sinto que ainda vou ajudar. É por isso que você está aqui, não é, minha amiga? Veio acalmar meu coração… dizer que devo partir sem medo, pelo sonho desse povo.

O homem silenciou. Virou-se de costas e começou a rezar baixinho.

Depois, voltou-se para ela e sorriu novamente.

A coruja percebeu: ele estava em paz com o próprio destino. Não temia a própria morte — mas a daqueles que permaneceriam.

— Você só prova — retomou ele — que a morte não é o fim. Eu volto, não volto? Não sei se em corpo ou espírito… mas viverei no sonho dessas pessoas.

A rasga-mortalha, pela primeira vez, não partiu.

Havia algo naquele homem que escapava à lógica dos vivos. Ele parecia compreender o que ela própria apenas executava. Ainda assim, no fim, era apenas mais um mortal diante do inevitável.

A coruja abriu as asas. Antes de partir, deixou cair uma de suas penas. Seu grito cortou a noite, fazendo a multidão estremecer. O velho acompanhou seu voo até que ela desaparecesse no horizonte. Sob o céu frio e cintilante, seu corpo parecia atravessar a escuridão como um feixe de luz.

Depois daquele encontro, o homem caminhou até a pena caída e, com ela em mãos, dirigiu-se à fogueira. Seu destino estava traçado, mas as suas palavras permaneceriam.

Naquela noite, anunciou sua morte.

No dia seguinte, tombaria em combate — assim como o líder das forças paranaenses, atingido no peito. Ainda assim, sua presença não se encerraria ali. A crença em seu retorno sustentaria a fé daquele povo por muitos anos. Sua palavra atravessaria gerações.

E a rasga-mortalha seguiu seu caminho.

Testemunhou dores incontáveis, mortes brutais, destinos interrompidos. Mas, sempre que o peso do que via se tornava insuportável, lembrava-se daquele encontro.

Do homem. Do sorriso. Da calma diante do fim.

E, por um instante, o lamento parecia menos duro ao cortar os céus do Contestado.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

SESSÃO CONTOS: O FANTASMA DA 7

 

Arte: Ivan Tracz, 2026

 Um silêncio ensurdecedor percorria as ruas da pacata Porto União/SC. Antes motivo de disputa judicial entre Paraná e Santa Catarina, a cidade, irmã gêmea de União da Vitória/PR, vivia dias mais calmos, passados quase 16 anos do fim da refrega cabocla na região. Era uma noite invernal; a neblina baixava espessa, e o único som vinha dos latidos de um cão de rua.

Dois homens alcoolizados percorriam a famosa Avenida Sete de Setembro, no centro da cidade catarinense. Ambos eram pescadores e moravam em casebres na barranca do grande Rio Iguaçu. Bebiam para esquecer o cansaço e as dores do mundo. Rompiam o silêncio com um cantarolar estridente, que já começava a irritar os moradores. Contudo, um deles passou a gargalhar alto e caiu sentado no chão, agarrado apenas ao seu litro de vinho barato. Enquanto tentava se levantar e murmurava coisas sem sentido, o bêbado percebeu que seu amigo agia de forma estranha.

— Carlos! — chamou ele, com a voz trôpega. — Que diacho cê viu, home? Parece que viu assombração.

— Mas tô achando que vi mesmo, hein… óia lá — respondeu Carlos, apontando.

Edevaldo teve um súbito arrepio na espinha antes mesmo de entender para onde o amigo apontava. Semicerrou os olhos, tentando se firmar em pé. Carlos já nem parecia bêbado. Edevaldo forçou mais a vista, mas não enxergou nada. Ainda assim, o arrepio lhe gelou as mãos, e o frio, antes contido pelo álcool, voltou de forma avassaladora.

Mesmo com medo, os dois seguiram subindo pela avenida. Carlos não dizia uma palavra; parecia que, após apontar, sua língua fora arrancada e o brilho de seu rosto, apagado. Ao observá-lo melhor, agora fora da sombra do chapéu, Edevaldo percebeu sua palidez. Assustou-se. Os dois caminhavam lentamente, e Edevaldo, tentando se recompor, adiantou-se alguns passos. O andar, antes incerto, tornara-se firme, como se a bebida tivesse evaporado junto com a neblina.

Depois de alguns metros, Carlos segurou o braço do amigo e, um pouco mais corado, conseguiu dizer:

— Eu não sei o que eu vi…, mas não era coisa boa.

Sem palavras, Edevaldo apenas assentiu, fingindo uma tranquilidade que não sentia. Ambos tinham visto pouco — ou nada —, mas o aperto no peito, misturado ao medo, dizia muito sobre aquele momento. Nem perceberam quando o vinho, antes companheiro e coragem líquida, já não estava mais ali.

Ao se aproximarem de uma esquina, sentiram-se ligeiramente mais calmos. A cor voltava ao rosto de Carlos, e Edevaldo respirou fundo. Ainda assim, o peso no peito persistia. Foi então que, ao dobrarem a esquina, avistaram um homem parado no meio da rua.

Ele usava chapéu, tinha uma barba branca, e seus olhos permaneciam ocultos pela aba. As roupas, puídas, pareciam de outro tempo. Ficava imóvel, como se aguardasse a chegada dos dois. À medida que se aproximavam, um arrepio profundo e constante tomou conta deles. Não era apenas medo: ambos começaram a compreender que aquele homem não pertencia àquele lugar — talvez, nem a aquele mundo.

Apesar do pavor, a curiosidade falou mais alto. A neblina dificultava enxergar melhor o estranho. De repente, uma ventania surgiu, obrigando-os a cobrir o rosto e segurar os chapéus. Quando conseguiram olhar novamente, o homem havia desaparecido.

— Carlos… — tentou dizer Edevaldo.

Mas, ao virar-se, percebeu que o amigo também havia sumido.

O desespero o tomou por completo.

Edevaldo saiu correndo pela neblina, rompendo aos gritos o silêncio fúnebre que havia surgido com a misteriosa figura. Chamava por Carlos, mas não havia resposta. Tomado pelo medo, desistiu da noite de boêmia e decidiu voltar para casa. Caminhava apressado, tentando chegar vivo — ou ao menos encontrar o amigo são e salvo. O corpo gelado, a alma em sobressalto, os sentidos apontavam para algo profundamente obscuro.

Edevaldo não dormiu naquela noite.

Sozinho em seu casebre, embebido pelo silêncio ensurdecedor e pelo movimento das águas próximos a sua janela, ele permanecia inquieto, incapaz de compreender o que havia acontecido. Já perto do amanhecer, exausto e vencido pelo frio e pelo medo, adormeceu. Em sonhos, viu novamente o homem — dessa vez, viu claramente sua aparência. Usava um chapéu velho de couro marrom e vestia sobre a roupa uma espécie de poncho da mesma cor do chapéu. Os seus olhos não se escondiam mais. Olhavam fixamente para Edevaldo, que os fitou diretamente percebendo sua cor acinzentada. As mãos se escondiam sob a roupa, e seu olhar era duro, pesaroso, funesto. Edevaldo só viu isso, nada mais. O rosto pálido do homem, roxo de frio, suas olheiras fundas, seu olhar congelante, acompanhado de uma neblina espessa, que não permitia ver mais nada além daquela figura. Era como se viesse buscá-lo. Era um sonho escuro, sujo, doloroso. Assim permaneceu por horas, até ser despertado por três batidas fortes na porta.

Assustado, acordou suado, confuso, misturando sonho e realidade.

Ao abrir, deparou-se com Justina, mãe de Carlos, em lágrimas.

Desesperado, Edevaldo temeu o pior.

A mulher, aflita, contou que o filho estava desaparecido havia dias e fora encontrado morto no rio Iguaçu, próximo à barranca. Quando encontrado seu corpo, próximo a ele havia um pequeno barco, a deriva no meio do rio. O corpo de Carlos estava azulado, inchado, por estar a dias no rio. Na embarcação havia um único remo, enquanto o outro estava próximo a Carlos na encosta. A descrição de Justina intrigou Edevaldo. Se faziam dias que ele estava morto na água, como o próprio cadáver denunciara, quem havia utilizado o barco? Haveriam conduzido o corpo de Carlos? Tudo indicava suicídio. Chocado, ele afirmou que estivera com Carlos na noite anterior — o que não fazia sentido. Justina, incrédula, respondeu que isso era impossível: o filho estava sumido havia três dias.

A versão contada pelos jornais nos dias subsequentes era que o amigo ébrio de Edevaldo teria se jogado do rio Iguaçu durante a madrugada alguns dias antes. Mas como ele esteve com Carlos? Por que ele teria se jogado? Como o corpo dele teria sumido por vários dias? Os boatos davam conta de influências sobrenaturais. A história de que Carlos esteve com Edevaldo após sua morte intrigou toda Porto União, que passou a cultivar a história do fantasma da 7. Mas como toda boa história, os contos fantasmagóricos foram substituídos pelas notícias de violências locais e a chegada da segunda guerra mundial.

Mas para Edevaldo nada daquilo era só história. Ele tentou juntar as peças, mas não conseguia distinguir o que era real e o que era delírio. Estaria enlouquecendo? A noite anterior fora um sonho? Carlos realmente estivera ali? E quem era aquele homem?

Os anos passaram, e ele nunca mais viu a figura na neblina. Ainda assim, por muitas noites, sonhou com aquele ser.

Passou a vida afirmando ter estado com Carlos e vivido tudo aquilo. Talvez nunca tenha compreendido o que ocorreu naquela noite obscura. Sua história chegou aos jornais, transformando-se em relato estranho, entre o factual e o lendário.

Mas Edevaldo jamais encontrou respostas.

Ou talvez tenha encontrado — no fim, no instante de sua morte.


 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

ÓPERA XUCRÁ CABOCLA: TEATRO E VIVÊNCIA NO CONTESTADO

No dia 23 de outubro de 2025, durante a celebração da Semana do Contestado, no município de Lebon Régis (SC), ocorreu a exibição da Ópera Xucra Cabocla, uma parceria entre a diretora Márcia Paraiso, a equipe da Plural Filmes, a Escola de Educação Básica 30 de Outubro e a Associação Cultural Coração do Contestado. Nesse espetáculo, rememora-se a queda da cidade santa de Santa Maria, última das vilas caboclas, invadida e destruída por forças militares na Páscoa de 1915, ao final do conflito do Contestado.

A escolha de representar o episódio por meio da atuação de crianças e adolescentes da EEB 30 de Outubro, utilizando-se do cenário teatral, da iluminação e da musicalidade, foi extremamente acertada. Afinal, a região do Contestado é reconhecida por suas festas, religiosidade e canções — elementos que atravessam as décadas e compõem uma memória que, embora tenha sido gradualmente esquecida, hoje é retomada com vigor.

Destaca-se, ainda, o papel articulador da Associação Cultural Coração do Contestado, que atuou ativamente na captação de recursos e na coordenação do trabalho coletivo. A entidade foi responsável, entre outras ações, pela produção dos belíssimos cenários, pela organização do espaço de exibição e pela mobilização para que as escolas do município pudessem assistir à peça, além de convidar diversos produtores culturais da região para prestigiar o espetáculo.

Além disso, uma ópera grandiosa como essa, marcada por uma proposta ousada, evidenciou o envolvimento da comunidade, da escola, de instituições públicas e de inúmeros colaboradores externos — entre estudantes, docentes e artistas de várias localidades, tanto de dentro quanto de fora do território contestado. Isso demonstra que a lembrança do conflito não pertence apenas ao passado, mas permanece carregada de significados no presente, reafirmando a importância de sua representação.

Presentificar o Contestado por meio da arte é reafirmar a memória de um povo historicamente marginalizado pelo Estado e que agora reivindica seu espaço — antes ocupado quase exclusivamente por descendentes de europeus na região. O caboclo, sua cultura, práticas e vivências não residem no passado, mas estão profundamente enraizados no presente, promovendo identificação, conexão e o resgate das origens desse território, incluindo as contribuições de povos negros e indígenas.

As luzes, a música e o talento das crianças de origem cabocla constituem um marco simbólico dessa retomada e da reivindicação de uma memória coletiva. O espetáculo resgata o espaço público e cultural do município, tornando-se um exemplo de incentivo à valorização histórica e artística de toda a região. O cuidado com os detalhes — como a reconstrução das moradias, dos instrumentos, das acomodações e das representações cênicas — revela a relevância desse movimento na construção da identidade dos diversos sujeitos envolvidos na criação da obra.

Desse modo, é fundamental destacar que memória e história exercem poder e influência. Retomar uma narrativa comunitária é demonstrar a força coletiva de um povo que busca afirmar-se e ressignificar sua trajetória. A reinterpretação dessa narrativa constitui, portanto, um exercício do presente: utiliza o conflito do Contestado como instrumento para compreender-se no agora, com todas as suas complexidades, e para debater temas contemporâneos como desigualdade social, violência de Estado, desemprego, misoginia, racismo e discriminação — questões ainda persistentes em nossa região.

Chamar de “xucra” a Ópera Cabocla é, também, um gesto de ressignificação: um termo outrora pejorativo torna-se símbolo de resistência e orgulho daqueles que antes lutaram por existir e que, ainda hoje, continuam lutando para viver com dignidade.


Fotos da exibição do dia 23 de outubro no período da tarde (acervo do autor)











quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Considerações sobre as Ilustrações do Combate de Rio das Antas de Hassis

    Em 1984, o artista Hassis (1926–2001) produziu mais de 78 desenhos a nanquim em bico de pena. Como afirma Marli Auras, “esse precioso conjunto de desenhos trata de sintetizar, com objetividade, a perspectiva pela qual Hassis compreendeu a formação da Guerra do Contestado” (Hassis & Auras, 2023, p. 9). Essas ilustrações foram elaboradas como esboços para a criação de um painel de 36 m², dividido em sete módulos, nos quais o artista construiu uma sequência narrativa sobre o desenrolar do conflito do Contestado. Originalmente, o painel foi exposto no Terminal Rita Maria, em Florianópolis (SC), e posteriormente incorporado ao acervo do Museu do Contestado, na cidade de Caçador (SC), onde permanece até hoje.

Partes do painel de 36m² intitulado "Contestado - Terra Contestada" de Hassis (Museu Histórico e Antropológico da Região do Contestado - Caçador/SC - foto acervo do autor).

Dessa forma, o presente texto tem por objetivo analisar duas das ilustrações em nanquim realizadas por Hassis para a execução desse trabalho: Combate de Rio das Antas – Jagunços atacam colonos e Combate de Rio das Antas – Queima de cadáveres dos jagunços.

Assim como as outras 76 ilustrações, essas imagens estão reunidas na recente obra publicada pela Editora da UFSC, Guerra do Contestado Ilustrada, escrita por Marli Auras. Na publicação, cada episódio do conflito é apresentado em textos curtos, acompanhados das ilustrações que materializam visualmente os acontecimentos narrados. No trecho em que se encontram os desenhos analisados neste estudo, destacam-se os principais elementos do evento: a morte de Francisco Alonso de Souza e a queima dos corpos dos “jagunços”. O episódio representado é descrito tanto por Peixoto (1920) quanto por Queiroz (1981), e refere-se a um dos ataques ocorridos durante a chamada “ofensiva rebelde”, fase em que, após a reorganização do movimento caboclo do Contestado em várias cidades santas, houve um avanço contra as forças governamentais e os coronéis. Tal ofensiva configurou uma resposta direta ao massacre ocorrido em Taquaruçu (fevereiro de 1914) e aos sucessivos ataques a Caraguatá (entre março e maio do mesmo ano).

Nesse contexto, o avanço caboclo ficou marcado pelo assalto a Curitibanos, pelo ataque à madeireira de São João dos Pobres (atual Calmon/SC) e por sucessivas incursões em diversas vilas, nas quais os ataques eram previamente anunciados com o intuito de evitar mortes em combates. Rio das Antas, portanto, foi alvo de um desses ataques, que se destacou pela resistência dos colonos e pela morte do líder caboclo Chiquinho Alonso.

Hassis retrata, no desenho do ataque jagunço (figura 1), os imigrantes em primeiro plano, sugerindo que estavam em posição de emboscada, aguardando o ataque dos caboclos do Contestado. Além daqueles próximos à cerca, observa-se, dentro da casa, dois imigrantes representados. Chama a atenção o fato de que não aparecem apenas homens, mas também mulheres — duas delas em primeiro plano — que aparentam ser crianças ou adolescentes empunhando armas.

Figura 1: Imagem do desenho em nanquim de Hassis intitulado "Combate do Rio das Antas - Jagunços Atacam Colonos" (1984 - Fonte: Acervo Estação Contestado).


    Essa representação pode estar associada ao relato feito por Peixoto e Queiroz sobre uma jovem armada com uma carabina que teria sido morta durante o ataque, episódio que, na memória popular do município de Rio das Antas, causa profunda comoção. Tal narrativa foi amplamente utilizada para reforçar a imagem dos seguidores de José Maria como cruéis e violentos. Ao fundo, nota-se a ambientação rural, com plantações e araucárias que simbolizam o território dos colonos. No centro da composição, destacam-se bandeiras com cruzes, representando os caboclos surpreendidos pelos imigrantes.

Na segunda imagem (figura 2), ambientada no mesmo local do conflito, mas agora vista da perspectiva da casa, observam-se, ao fundo, os corpos dos caboclos sendo queimados. Segundo Queiroz (1981), os corpos dos insurgentes teriam sido colocados em uma grande fogueira, enquanto os dos imigrantes foram devidamente sepultados. Simbolicamente, essa diferença pode representar o desprezo pelos inimigos, considerados indignos de um enterro cristão. Tal gesto sugere a desumanização dos caboclos — talvez uma tentativa de esvaziar a culpa por suas mortes, justificando sua execução como moralmente aceitável. Ainda assim, a maioria dos colonos fugiu do local, temendo as possíveis consequências legais de suas ações.

Figura 2:  Imagem do desenho em nanquim de Hassis intitulado "Combate do Rio das Antas – Queima dos Cadáveres Jagunços" (1984 - Fonte: Acervo Estação Contestado).


Dessa maneira, o presente texto buscou levantar diferentes hipóteses sobre a construção dessas ilustrações. As questões e interpretações aqui apresentadas suscitam análises mais profundas, que poderão ser desenvolvidas em pesquisas futuras. Destaca-se, portanto, que a obra de Hassis representa um marco importante na compreensão da Guerra do Contestado, pois, por meio de sua arte, o autor materializou a violência e o processo de marginalização vividos pelos caboclos. Interpretar suas imagens hoje permite reconhecer nelas não apenas um valor estético e histórico, mas também pedagógico — ao estimular a reflexão crítica e a análise simbólica de um passado ainda presente na memória coletiva da região.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

As Cidades Santas do Contestado

    As experiencias sociais e religiosas da região do Contestado nos permitem entender a presença dos sujeitos, a ocupação do território e a relação destes elementos com a vida cotidiana dos caboclos no espaço compartilhado que se formou. Sob a égide das leis pregadas pelos monges João e José Maria, as cidades santas demonstram possuir diversos elementos que são responsáveis por auxiliar na compreensão do movimento social sertanejo do início do século XX.

    Ao analisar a história do conflito a partir da formação das vilas santas, é possível alicerçar alguns motivos que levaram os caboclos a reunirem-se. Dessa forma, o objetivo desse texto é pontuar quais elementos dessas cidades são elencados no texto escrito por Delmir Valentini (2022) como características gerais, comuns a todas as cidades santas. 

    Primeiramente, destacam-se a formação dos quadros santos. Como uniformidade dos redutos, os caboclos reuniam-se na praça central, normalmente próximos a igreja, a fim de formar uma estrutura em formato quadrado, demarcada por bandeiras e cruzes. Essa abordagem era necessária para organizar a forma como eram feitas as orações, passadas as ordens e divididas as tarefas. Nesse Há uma forte hierarquia religiosa. Além disso, cabe ressaltar a importância das virgens, como Maria Rosa, que no fim também assume plenos poderes como líder de briga, estando a frente de Caraguatá e Bom Sossego.

    Como característica central dessas formações populacionais era a escolha dos vales. Nesses locais de difícil acesso os caboclos se organizavam de maneira isolada, dificultando o acesso para ataques de militares. A estratégia do general Setembrino de Carvalho, durante o ano de 1915, através do cercamento, coloca os caboclos em situação de fragilidade frente ao que antes era uma qualidade. Ao dificultar o acesso de bens de consumo, a fome e a moléstia tornam-se questão chave para sufocar cada vez mais os sujeitos marginalizados do Contestado.

    Apesar de tudo, a cidade santa apresentava-se como uma proposta de encontrar uma terra sagrada, sem males, de vida compartilhada, onde todos eram iguais. Os interesses que surgiram naquele período, baseados na exploração dos sujeitos e na violência do Estado contra os mais pobres, identificaram nessa busca por liberdade uma forma de afronta, vestida pelos poderosos como fanatismo. Portanto, ao enfrentar as forças oficiais, os caboclos significaram algo que deveria ser destruído aos olhos dos mais ricos, uma força coletiva que deveria extinguida a qualquer custo.


Quadro "Reduto" de Dea Reichmann. A artista reinterpreta como era a organização das casas nas cidades santas. Veja que as cruzes na parte central demarcam o que seria o "Quadro Santo". (Fonte: UnC)


Representação de um quadro santo (Queiroz, 1977).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: 

VALENTINI, Delmir. Cidades Santas ou redutos: igualdade, fé e fraternidade. IN: RODRIGUES, Rogério Rosa; MACHADO,Paulo Pinheiro; TOMPOROSKI, Alexandre Assis; VALENTINI, Delmir José; ESPIG,Márcia Janete. A Guerra do Contestado Tintim por Tintim. São Paulo, Editora Letra eVoz, 2023. (p. 229 – 237). 

quinta-feira, 9 de maio de 2024

A REPRESENTAÇÃO DOS NEGROS NOS QUADRINHOS: SUPER CHOQUE E A MILLESTONE MEDIA

     Os quadrinhos sempre refletiram os dilemas e as lutas sociais da época em que foram constituídos. Desde os primeiros dias das histórias em quadrinhos até a atualidade, essas narrativas coloridas têm sido um espelho para diversos eventos históricos ocorridos na sociedade contemporânea.

    Nos anos 1960 e 1970, uma era marcada pelo fervor do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, surgiram personagens como Luke Cage e a série "X-Men", ambos refletindo as lutas e os desafios enfrentados pelas minorias. Luke Cage, o herói de aluguel, representava a ascensão dos negros em uma sociedade que tentava mantê-los à margem. Já os mutantes da série "X-Men" eram uma metáfora poderosa para as experiências daqueles marginalizados por causa de sua diferença, uma analogia clara à luta contra o racismo e a discriminação.

    Além dos diversos debates e avanços produzidos durante as décadas de 1960 e 1980, foi nos anos 1990, com o surgimento da Milestone Media, que se proporcionou um maior debate dentro do mundo corporativo dos quadrinhos ocidentais. Fundada por Dwayne McDuffie, um roteirista negro, A editora tinha como proposito dar voz e espaço para artistas de minorias étnicas. A Milestone foi um ponto de diversidade em um mar de homogeneidade do mercado estadunidense dos quadrinhos. Seus personagens, como "Hardware", "Icon" e o icônico "Super Choque", não apenas representavam uma multiplicidade de origens étnicas, mas também abordavam questões sociais urgentes, como racismo e violência urbana.

McDuffie no final dos anos 1980 (Fonte: Wikipédia).

    Super-choque é um dos personagens de maior sucesso da Millestone Media. A série produzida pela Warner em 2003 traz não somente um jovem periférico como personagem principal, mas suscita debates relacionados ao porte de armas, violência, bullying, racismo, etc. Muito embora o recorte de análise aqui proposto seja o das histórias em quadrinhos dos EUA, cabe ressaltar que a geração millenials no Brasil cresceu assistindo não só super choque, como Liga da Justiça, série a qual Dwayne McDuffie fez parte. Nesse sentido, é importante entender as HQs como um reflexo da cultura, os quais foram problematizados diversas vezes e contribuem para tornar a obra mais contemporânea do que nunca.

Super-Choque (Fonte: O Hoje).
   
 O trabalho de McDuffie torna-se um caminho para compreender como as HQs não são apenas entretenimento, mas uma forma de trazer debates políticos e sociais relacionados a representatividade, resistência, lutas de classes e a opressão colonial. A representação de personagens negros nos quadrinhos é a ponta do iceberg de toda uma indústria, que muitas vezes usa dessas pautas com o intuito de obtenção de lucro e exploração do trabalho de roteiristas, desenhistas e demais profissionais que produzem as histórias veiculadas por grandes corporações.  

Para saber mais:


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

V ACAMPAMENTO CABOCLO DO CONTESTADO: TIMBO GRANDE/SC

     Viver na região do Contestado e respirar a História do conflito é um modo de entender como no tempo presente o movimento sertanejo não desapareceu. Diante dessa constatação, deve-se compreender que a Guerra ocorrida durante o período republicano, precisamente entre 1912 e 1916 nada mais é do que um movimento de resistência que reverberou de uma cultura cabocla do compartilhamento e doação mutua entre as pessoas.
    Por isso, diversas ocasiões nessa região demonstram o papel popular e caboclo que possui o movimento sertanejo do Contestado. E mais: é possível ainda perceber as reverberações das vivências da religiosidade cabocla nos rincões mais afastados desses locais. O acampamento caboclo na acolhedora Timbó Grande/SC, cidade de pouco mais de 7 mil habitantes (segundo dados do governo do Estado de Santa Catarina) é um desses momentos.
    A cidade é próxima ao conhecido "Vale da Morte", local onde ficava o reduto de Santa Maria, palco de uma das mais violentas chacinas praticadas pelo governo brasileiro durante o conflito, que causou a destruição de cerca de 5000 casas. O emblemático vale é o ponto de partida das atividades do evento, com a caminhada Jorge Mattoso. foram 10 km de caminhada por morros, caminhos fechados pela mata e pelo alto do Vale, que permitia obter uma bela vista da cidade de Timbó Grande.


Vista do "Vale da Morte", local onde ficava o reduto de Santa Maria. (Acervo do autor, outubro de 2021).

Vista do morro da Antena, a cidade de Timbó Grande/SC está ao fundo. (Acervo do autor, outubro de 2021).

    A sensação de vivenciar a Guerra do Contestado e seus sítios Históricos é indescritível. Olhar para um local e imaginar tudo que aconteceu e perceber como isso impactou naquele local é instigante e intrigante. Além de todo processo de ver e sentir o fato Histórico, a reverberação cultural era presente. Comidas caboclas, acolhimento coletivo e respeito entre todos os indivíduos são a marca registrada do evento, que não cobrou nenhum centavo por toda comida compartilhada.

    O acampamento se aglutina no rancho do Cafu, cerca de 5 km do centro da cidade de Timbó Grande. Lá, foram realizadas apresentações culturais, jantar e café caboclo e onde todas as pessoas puderam organizar suas barracas e dormir sob o céu do Contestado. Um frio serrano, somado ao calor da acolhida foram os locais ideais para o lançamento da obra "Adeodato: a Redenção" de Nilson Cesar Fraga. 
    O professor, pesquisador sobre o Contestado a mais de 20 anos, lança o terceiro livro da trilogia sobre um intrigante personagem desse movimento, o caboclo Adeodato Leonel Ramos, o Leodato, último líder do conflito, que por décadas foi considerado o próprio demônio pelas narrativas militares do movimento do Contestado. A ideia do autor é familiarizar a figura de um homem destruído pela violência e pela guerra, no limiar entre uma vitima e um bandido, simbolizando um elemento único do Contestado: não há vilões e mocinhos, somente pessoas lutando pelo seu direito de existir diante do governo republicano conservador brasileiro.
    Há uma simbologia construída nesse ato de lançamento da obra: se busca levar as narrativas do contestado a todas as pessoas, através da linguagem literária e imaginativa. O Contestado pode ser saboreado também pela imaginação, religiosidade, cultura e contação de histórias, como uma narrativa brasileira, trazendo o sofrimento somado a luta e resistência. 
    No segundo dia, o ápice foi a missa cabocla, celebrada pela manhã, com ampla presença da comunidade, juntando elementos tradicionais e a consagração ao monge João Maria, devoção popular não reconhecida pelo catolicismo clerical, mas vista pela comunidade com bons olhos. Essa junção mostra como a ideia de comunhão entre as pessoas é abraçada e comemorada por todos. Além da celebração, o almoço caboclo e o festival da canção fecharam o belíssimo evento.
    De toda maneira, o que é visto é algo além de um simples acampamento. Se percebe a comunhão de diversas pessoas de várias cidades diferentes que juntas compartilham. Todos que tem e que não tem, como o monge dizia, trocam e dividem experiências, vivencias e entendem o movimento do Contestado como um ato cultural e social de resistência, para além de uma guerra genocida. O conflito bélico é fundamental para compreender o apagamento e busca por uma espécie de limpeza étnica (que se desdobra por décadas após o conflito), porém o Contestado vive e resiste nas pessoas, caboclas, presentes em situações magicas como essa, em que o Contestado não só visto e sentido, mas é também dividido.


Café da manhã caboclo, realizado na chegada de Timbó Grande/SC (Acervo do autor, outubro de 2021).

Professor Nilson Cesar Fraga explanando sobre o "Vale da Morte" e o movimento do Contestado durante o almoço caboclo (Acervo do autor, outubro de 2021).

Lançamento do livro "Adeodato a Redenção" de Nilson Cesar Fraga. (Acervo do autor, outubro de 2021).


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