As
noites caíam com o pesar da morte e o horror da dor. A batalha se anunciava em
meio à fé, à resistência e ao sofrimento de uma população que há muito padecia.
No início do século XX, na região chamada de Contestado, havia surgido um homem
santo que dizia curar e aliviar as dores do povo. Ninguém sabia de onde vinha
José Maria.
Com
um olhar duro, marcado por rugas profundas, barbas longas de um branco
amarelado e vestindo roupas puídas, o velho homem — que trazia na cabeça um
chapéu de pele de jaguatirica — guiava uma multidão. Pobres mortais entregues à
própria sorte, cansados, desgastados pelo abandono e pela perda de tudo o que
tinham, expulsos de suas casas e das terras onde viviam há tantos anos.
Entre
as centenas que chegavam aos campos de Irani, havia crianças, velhos, homens e
mulheres que se agarravam ao último recurso que lhes restava: a fé. Essa
crença, representada pelo monge e por São Sebastião, sustentava a esperança
daqueles abandonados. E ao longe, escondida na névoa, uma coruja observava tudo
atentamente.
De
penas claras, quase pálidas, olhar rígido e sereno, com olhos como esferas
negras, a rasga-mortalha seguia seu cortejo. O nome curioso vinha de sua
função: anunciar a morte. Nunca era recebida com afeto; ao ser vista, era
espantada, como se isso pudesse evitar o destino que se aproximava. Sabia pouco
sobre a vida, mas conhecia profundamente o fim. Seu lamento era cortante, um
grito estridente, quase um gemido de agonia — um anúncio inevitável.
Ao
observar aquele grupo, soube: a morte se aproximava. Carregava-a consigo nas
asas. Sempre que pousava em algum lugar, alguém deixaria esta existência.
Engana-se quem pensa que ela vinha buscar os mortos; sua função era anunciar o
início da travessia.
Mas
naquela noite seria diferente.
A
multidão se reunia ao redor do fogo, tentando afastar o frio que cortava o mês
de outubro. Havia uma tensão suspensa no ar. A coruja se aproximou lentamente e
pousou no galho de uma árvore alta, observando o vozerio.
José
Maria, o monge santo, repousava em uma clareira próxima, sentado sobre uma
pedra. A coruja passou a observá-lo.
Em
um voo curto, desceu e pousou diante dele.
Por
um instante, o tempo pareceu suspenso. Um vento frio atravessou o espaço entre
os dois. O homem demorou a notar sua presença, mas, quando a viu, sorriu.
A
rasga-mortalha hesitou. Era a primeira vez que alguém não reagia com medo.
O
homem a encarava com calma. A coruja permaneceu ali — algo incomum, quase
contra sua própria natureza. Em qualquer outra noite, já teria lançado seu
grito e rasgado o céu escuro. Mas não desta vez.
—
Eu já te esperava há muito tempo — disse o homem, com voz serena. — Sabia que
logo você chegaria. Talvez minha função tenha terminado por aqui… — fez uma
breve pausa, levantando-se — ou talvez eu ainda seja mais útil do outro lado.
A
pequena coruja permaneceu imóvel, intrigada com os devaneios do velho.
—
Será amanhã, não é? — continuou ele. — E o pior… serão anos de dor e
sofrimento. Mas, de alguma forma, sinto que ainda vou ajudar. É por isso que
você está aqui, não é, minha amiga? Veio acalmar meu coração… dizer que devo
partir sem medo, pelo sonho desse povo.
O
homem silenciou. Virou-se de costas e começou a rezar baixinho.
Depois,
voltou-se para ela e sorriu novamente.
A
coruja percebeu: ele estava em paz com o próprio destino. Não temia a própria
morte — mas a daqueles que permaneceriam.
—
Você só prova — retomou ele — que a morte não é o fim. Eu volto, não volto? Não
sei se em corpo ou espírito… mas viverei no sonho dessas pessoas.
A
rasga-mortalha, pela primeira vez, não partiu.
Havia
algo naquele homem que escapava à lógica dos vivos. Ele parecia compreender o
que ela própria apenas executava. Ainda assim, no fim, era apenas mais um
mortal diante do inevitável.
A
coruja abriu as asas. Antes de partir, deixou cair uma de suas penas. Seu grito
cortou a noite, fazendo a multidão estremecer. O velho acompanhou seu voo até
que ela desaparecesse no horizonte. Sob o céu frio e cintilante, seu corpo
parecia atravessar a escuridão como um feixe de luz.
Depois
daquele encontro, o homem caminhou até a pena caída e, com ela em mãos,
dirigiu-se à fogueira. Seu destino estava traçado, mas as suas palavras
permaneceriam.
Naquela
noite, anunciou sua morte.
No
dia seguinte, tombaria em combate — assim como o líder das forças paranaenses,
atingido no peito. Ainda assim, sua presença não se encerraria ali. A crença em
seu retorno sustentaria a fé daquele povo por muitos anos. Sua palavra
atravessaria gerações.
E
a rasga-mortalha seguiu seu caminho.
Testemunhou
dores incontáveis, mortes brutais, destinos interrompidos. Mas, sempre que o
peso do que via se tornava insuportável, lembrava-se daquele encontro.
Do
homem. Do sorriso. Da calma diante do fim.
E, por um instante, o lamento parecia menos duro ao cortar os céus do Contestado.

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