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terça-feira, 5 de maio de 2026

SESSÃO CONTOS: A MENSAGEIRA DA MORTE


As noites caíam com o pesar da morte e o horror da dor. A batalha se anunciava em meio à fé, à resistência e ao sofrimento de uma população que há muito padecia. No início do século XX, na região chamada de Contestado, havia surgido um homem santo que dizia curar e aliviar as dores do povo. Ninguém sabia de onde vinha José Maria.

Com um olhar duro, marcado por rugas profundas, barbas longas de um branco amarelado e vestindo roupas puídas, o velho homem — que trazia na cabeça um chapéu de pele de jaguatirica — guiava uma multidão. Pobres mortais entregues à própria sorte, cansados, desgastados pelo abandono e pela perda de tudo o que tinham, expulsos de suas casas e das terras onde viviam há tantos anos.

Entre as centenas que chegavam aos campos de Irani, havia crianças, velhos, homens e mulheres que se agarravam ao último recurso que lhes restava: a fé. Essa crença, representada pelo monge e por São Sebastião, sustentava a esperança daqueles abandonados. E ao longe, escondida na névoa, uma coruja observava tudo atentamente.

De penas claras, quase pálidas, olhar rígido e sereno, com olhos como esferas negras, a rasga-mortalha seguia seu cortejo. O nome curioso vinha de sua função: anunciar a morte. Nunca era recebida com afeto; ao ser vista, era espantada, como se isso pudesse evitar o destino que se aproximava. Sabia pouco sobre a vida, mas conhecia profundamente o fim. Seu lamento era cortante, um grito estridente, quase um gemido de agonia — um anúncio inevitável.

Ao observar aquele grupo, soube: a morte se aproximava. Carregava-a consigo nas asas. Sempre que pousava em algum lugar, alguém deixaria esta existência. Engana-se quem pensa que ela vinha buscar os mortos; sua função era anunciar o início da travessia.

Mas naquela noite seria diferente.

A multidão se reunia ao redor do fogo, tentando afastar o frio que cortava o mês de outubro. Havia uma tensão suspensa no ar. A coruja se aproximou lentamente e pousou no galho de uma árvore alta, observando o vozerio.

José Maria, o monge santo, repousava em uma clareira próxima, sentado sobre uma pedra. A coruja passou a observá-lo.

Em um voo curto, desceu e pousou diante dele.

Por um instante, o tempo pareceu suspenso. Um vento frio atravessou o espaço entre os dois. O homem demorou a notar sua presença, mas, quando a viu, sorriu.

A rasga-mortalha hesitou. Era a primeira vez que alguém não reagia com medo.

O homem a encarava com calma. A coruja permaneceu ali — algo incomum, quase contra sua própria natureza. Em qualquer outra noite, já teria lançado seu grito e rasgado o céu escuro. Mas não desta vez.

— Eu já te esperava há muito tempo — disse o homem, com voz serena. — Sabia que logo você chegaria. Talvez minha função tenha terminado por aqui… — fez uma breve pausa, levantando-se — ou talvez eu ainda seja mais útil do outro lado.

A pequena coruja permaneceu imóvel, intrigada com os devaneios do velho.

— Será amanhã, não é? — continuou ele. — E o pior… serão anos de dor e sofrimento. Mas, de alguma forma, sinto que ainda vou ajudar. É por isso que você está aqui, não é, minha amiga? Veio acalmar meu coração… dizer que devo partir sem medo, pelo sonho desse povo.

O homem silenciou. Virou-se de costas e começou a rezar baixinho.

Depois, voltou-se para ela e sorriu novamente.

A coruja percebeu: ele estava em paz com o próprio destino. Não temia a própria morte — mas a daqueles que permaneceriam.

— Você só prova — retomou ele — que a morte não é o fim. Eu volto, não volto? Não sei se em corpo ou espírito… mas viverei no sonho dessas pessoas.

A rasga-mortalha, pela primeira vez, não partiu.

Havia algo naquele homem que escapava à lógica dos vivos. Ele parecia compreender o que ela própria apenas executava. Ainda assim, no fim, era apenas mais um mortal diante do inevitável.

A coruja abriu as asas. Antes de partir, deixou cair uma de suas penas. Seu grito cortou a noite, fazendo a multidão estremecer. O velho acompanhou seu voo até que ela desaparecesse no horizonte. Sob o céu frio e cintilante, seu corpo parecia atravessar a escuridão como um feixe de luz.

Depois daquele encontro, o homem caminhou até a pena caída e, com ela em mãos, dirigiu-se à fogueira. Seu destino estava traçado, mas as suas palavras permaneceriam.

Naquela noite, anunciou sua morte.

No dia seguinte, tombaria em combate — assim como o líder das forças paranaenses, atingido no peito. Ainda assim, sua presença não se encerraria ali. A crença em seu retorno sustentaria a fé daquele povo por muitos anos. Sua palavra atravessaria gerações.

E a rasga-mortalha seguiu seu caminho.

Testemunhou dores incontáveis, mortes brutais, destinos interrompidos. Mas, sempre que o peso do que via se tornava insuportável, lembrava-se daquele encontro.

Do homem. Do sorriso. Da calma diante do fim.

E, por um instante, o lamento parecia menos duro ao cortar os céus do Contestado.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

SESSÃO CONTOS: O FANTASMA DA 7

 

Arte: Ivan Tracz, 2026

 Um silêncio ensurdecedor percorria as ruas da pacata Porto União/SC. Antes motivo de disputa judicial entre Paraná e Santa Catarina, a cidade, irmã gêmea de União da Vitória/PR, vivia dias mais calmos, passados quase 16 anos do fim da refrega cabocla na região. Era uma noite invernal; a neblina baixava espessa, e o único som vinha dos latidos de um cão de rua.

Dois homens alcoolizados percorriam a famosa Avenida Sete de Setembro, no centro da cidade catarinense. Ambos eram pescadores e moravam em casebres na barranca do grande Rio Iguaçu. Bebiam para esquecer o cansaço e as dores do mundo. Rompiam o silêncio com um cantarolar estridente, que já começava a irritar os moradores. Contudo, um deles passou a gargalhar alto e caiu sentado no chão, agarrado apenas ao seu litro de vinho barato. Enquanto tentava se levantar e murmurava coisas sem sentido, o bêbado percebeu que seu amigo agia de forma estranha.

— Carlos! — chamou ele, com a voz trôpega. — Que diacho cê viu, home? Parece que viu assombração.

— Mas tô achando que vi mesmo, hein… óia lá — respondeu Carlos, apontando.

Edevaldo teve um súbito arrepio na espinha antes mesmo de entender para onde o amigo apontava. Semicerrou os olhos, tentando se firmar em pé. Carlos já nem parecia bêbado. Edevaldo forçou mais a vista, mas não enxergou nada. Ainda assim, o arrepio lhe gelou as mãos, e o frio, antes contido pelo álcool, voltou de forma avassaladora.

Mesmo com medo, os dois seguiram subindo pela avenida. Carlos não dizia uma palavra; parecia que, após apontar, sua língua fora arrancada e o brilho de seu rosto, apagado. Ao observá-lo melhor, agora fora da sombra do chapéu, Edevaldo percebeu sua palidez. Assustou-se. Os dois caminhavam lentamente, e Edevaldo, tentando se recompor, adiantou-se alguns passos. O andar, antes incerto, tornara-se firme, como se a bebida tivesse evaporado junto com a neblina.

Depois de alguns metros, Carlos segurou o braço do amigo e, um pouco mais corado, conseguiu dizer:

— Eu não sei o que eu vi…, mas não era coisa boa.

Sem palavras, Edevaldo apenas assentiu, fingindo uma tranquilidade que não sentia. Ambos tinham visto pouco — ou nada —, mas o aperto no peito, misturado ao medo, dizia muito sobre aquele momento. Nem perceberam quando o vinho, antes companheiro e coragem líquida, já não estava mais ali.

Ao se aproximarem de uma esquina, sentiram-se ligeiramente mais calmos. A cor voltava ao rosto de Carlos, e Edevaldo respirou fundo. Ainda assim, o peso no peito persistia. Foi então que, ao dobrarem a esquina, avistaram um homem parado no meio da rua.

Ele usava chapéu, tinha uma barba branca, e seus olhos permaneciam ocultos pela aba. As roupas, puídas, pareciam de outro tempo. Ficava imóvel, como se aguardasse a chegada dos dois. À medida que se aproximavam, um arrepio profundo e constante tomou conta deles. Não era apenas medo: ambos começaram a compreender que aquele homem não pertencia àquele lugar — talvez, nem a aquele mundo.

Apesar do pavor, a curiosidade falou mais alto. A neblina dificultava enxergar melhor o estranho. De repente, uma ventania surgiu, obrigando-os a cobrir o rosto e segurar os chapéus. Quando conseguiram olhar novamente, o homem havia desaparecido.

— Carlos… — tentou dizer Edevaldo.

Mas, ao virar-se, percebeu que o amigo também havia sumido.

O desespero o tomou por completo.

Edevaldo saiu correndo pela neblina, rompendo aos gritos o silêncio fúnebre que havia surgido com a misteriosa figura. Chamava por Carlos, mas não havia resposta. Tomado pelo medo, desistiu da noite de boêmia e decidiu voltar para casa. Caminhava apressado, tentando chegar vivo — ou ao menos encontrar o amigo são e salvo. O corpo gelado, a alma em sobressalto, os sentidos apontavam para algo profundamente obscuro.

Edevaldo não dormiu naquela noite.

Sozinho em seu casebre, embebido pelo silêncio ensurdecedor e pelo movimento das águas próximos a sua janela, ele permanecia inquieto, incapaz de compreender o que havia acontecido. Já perto do amanhecer, exausto e vencido pelo frio e pelo medo, adormeceu. Em sonhos, viu novamente o homem — dessa vez, viu claramente sua aparência. Usava um chapéu velho de couro marrom e vestia sobre a roupa uma espécie de poncho da mesma cor do chapéu. Os seus olhos não se escondiam mais. Olhavam fixamente para Edevaldo, que os fitou diretamente percebendo sua cor acinzentada. As mãos se escondiam sob a roupa, e seu olhar era duro, pesaroso, funesto. Edevaldo só viu isso, nada mais. O rosto pálido do homem, roxo de frio, suas olheiras fundas, seu olhar congelante, acompanhado de uma neblina espessa, que não permitia ver mais nada além daquela figura. Era como se viesse buscá-lo. Era um sonho escuro, sujo, doloroso. Assim permaneceu por horas, até ser despertado por três batidas fortes na porta.

Assustado, acordou suado, confuso, misturando sonho e realidade.

Ao abrir, deparou-se com Justina, mãe de Carlos, em lágrimas.

Desesperado, Edevaldo temeu o pior.

A mulher, aflita, contou que o filho estava desaparecido havia dias e fora encontrado morto no rio Iguaçu, próximo à barranca. Quando encontrado seu corpo, próximo a ele havia um pequeno barco, a deriva no meio do rio. O corpo de Carlos estava azulado, inchado, por estar a dias no rio. Na embarcação havia um único remo, enquanto o outro estava próximo a Carlos na encosta. A descrição de Justina intrigou Edevaldo. Se faziam dias que ele estava morto na água, como o próprio cadáver denunciara, quem havia utilizado o barco? Haveriam conduzido o corpo de Carlos? Tudo indicava suicídio. Chocado, ele afirmou que estivera com Carlos na noite anterior — o que não fazia sentido. Justina, incrédula, respondeu que isso era impossível: o filho estava sumido havia três dias.

A versão contada pelos jornais nos dias subsequentes era que o amigo ébrio de Edevaldo teria se jogado do rio Iguaçu durante a madrugada alguns dias antes. Mas como ele esteve com Carlos? Por que ele teria se jogado? Como o corpo dele teria sumido por vários dias? Os boatos davam conta de influências sobrenaturais. A história de que Carlos esteve com Edevaldo após sua morte intrigou toda Porto União, que passou a cultivar a história do fantasma da 7. Mas como toda boa história, os contos fantasmagóricos foram substituídos pelas notícias de violências locais e a chegada da segunda guerra mundial.

Mas para Edevaldo nada daquilo era só história. Ele tentou juntar as peças, mas não conseguia distinguir o que era real e o que era delírio. Estaria enlouquecendo? A noite anterior fora um sonho? Carlos realmente estivera ali? E quem era aquele homem?

Os anos passaram, e ele nunca mais viu a figura na neblina. Ainda assim, por muitas noites, sonhou com aquele ser.

Passou a vida afirmando ter estado com Carlos e vivido tudo aquilo. Talvez nunca tenha compreendido o que ocorreu naquela noite obscura. Sua história chegou aos jornais, transformando-se em relato estranho, entre o factual e o lendário.

Mas Edevaldo jamais encontrou respostas.

Ou talvez tenha encontrado — no fim, no instante de sua morte.