sexta-feira, 24 de abril de 2026

Sessão Contos: O FANTASMA DA 7

Um silêncio ensurdecedor percorria as ruas da pacata Porto União/SC. Antes motivo de disputa judicial entre Paraná e Santa Catarina, a cidade, irmã gêmea de União da Vitória/PR, vivia dias mais calmos, passados quase 16 anos do fim da refrega cabocla na região. Era uma noite invernal; a neblina baixava espessa, e o único som vinha dos latidos de um cão de rua.

Dois homens alcoolizados percorriam a famosa Avenida Sete de Setembro, no centro da cidade catarinense. Ambos eram pescadores e moravam em casebres na barranca do grande Rio Iguaçu. Bebiam para esquecer o cansaço e as dores do mundo. Rompiam o silêncio com um cantarolar estridente, que já começava a irritar os moradores. Contudo, um deles passou a gargalhar alto e caiu sentado no chão, agarrado apenas ao seu litro de vinho barato. Enquanto tentava se levantar e murmurava coisas sem sentido, o bêbado percebeu que seu amigo agia de forma estranha.

— Carlos! — chamou ele, com a voz trôpega. — Que diacho cê viu, home? Parece que viu assombração.

— Mas tô achando que vi mesmo, hein… óia lá — respondeu Carlos, apontando.

Edevaldo teve um súbito arrepio na espinha antes mesmo de entender para onde o amigo apontava. Semicerrou os olhos, tentando se firmar em pé. Carlos já nem parecia bêbado. Edevaldo forçou mais a vista, mas não enxergou nada. Ainda assim, o arrepio lhe gelou as mãos, e o frio, antes contido pelo álcool, voltou de forma avassaladora.

Mesmo com medo, os dois seguiram subindo pela avenida. Carlos não dizia uma palavra; parecia que, após apontar, sua língua fora arrancada e o brilho de seu rosto, apagado. Ao observá-lo melhor, agora fora da sombra do chapéu, Edevaldo percebeu sua palidez. Assustou-se. Os dois caminhavam lentamente, e Edevaldo, tentando se recompor, adiantou-se alguns passos. O andar, antes incerto, tornara-se firme, como se a bebida tivesse evaporado junto com a neblina.

Depois de alguns metros, Carlos segurou o braço do amigo e, um pouco mais corado, conseguiu dizer:

— Eu não sei o que eu vi…, mas não era coisa boa.

Sem palavras, Edevaldo apenas assentiu, fingindo uma tranquilidade que não sentia. Ambos tinham visto pouco — ou nada —, mas o aperto no peito, misturado ao medo, dizia muito sobre aquele momento. Nem perceberam quando o vinho, antes companheiro e coragem líquida, já não estava mais ali.

Ao se aproximarem de uma esquina, sentiram-se ligeiramente mais calmos. A cor voltava ao rosto de Carlos, e Edevaldo respirou fundo. Ainda assim, o peso no peito persistia. Foi então que, ao dobrarem a esquina, avistaram um homem parado no meio da rua.

Ele usava chapéu, tinha uma barba branca, e seus olhos permaneciam ocultos pela aba. As roupas, puídas, pareciam de outro tempo. Ficava imóvel, como se aguardasse a chegada dos dois. À medida que se aproximavam, um arrepio profundo e constante tomou conta deles. Não era apenas medo: ambos começaram a compreender que aquele homem não pertencia àquele lugar — talvez, nem a aquele mundo.

Apesar do pavor, a curiosidade falou mais alto. A neblina dificultava enxergar melhor o estranho. De repente, uma ventania surgiu, obrigando-os a cobrir o rosto e segurar os chapéus. Quando conseguiram olhar novamente, o homem havia desaparecido.

— Carlos… — tentou dizer Edevaldo.

Mas, ao virar-se, percebeu que o amigo também havia sumido.

O desespero o tomou por completo.

Edevaldo saiu correndo pela neblina, rompendo aos gritos o silêncio fúnebre que havia surgido com a misteriosa figura. Chamava por Carlos, mas não havia resposta. Tomado pelo medo, desistiu da noite de boemia e decidiu voltar para casa. Caminhava apressado, tentando chegar vivo — ou ao menos encontrar o amigo são e salvo. O corpo gelado, a alma em sobressalto, os sentidos apontavam para algo profundamente obscuro.

Edevaldo não dormiu naquela noite.

Sozinho em seu casebre, embebido pelo silencio ensurdecedor e pelo movimento das águas próximos a sua janela, ele permanecia inquieto, incapaz de compreender o que havia acontecido. Já perto do amanhecer, exausto e vencido pelo frio e pelo medo, adormeceu. Em sonhos, viu novamente o homem — como se viesse buscá-lo. Era um sonho escuro, sujo, doloroso. Assim permaneceu por horas, até ser despertado por três batidas fortes na porta.

Assustado, acordou suado, confuso, misturando sonho e realidade.

Ao abrir, deparou-se com Justina, mãe de Carlos, em lágrimas.

Desesperado, Edevaldo temeu o pior.

A mulher, aflita, contou que o filho estava desaparecido havia dias e fora encontrado morto no rio Iguaçu, próximo à barranca. Chocado, ele afirmou que estivera com Carlos na noite anterior — o que não fazia sentido. Justina, incrédula, respondeu que isso era impossível: o filho estava sumido havia três dias.

Edevaldo tentou juntar as peças, mas não conseguia distinguir o que era real e o que era delírio. Estaria enlouquecendo? A noite anterior fora um sonho? Carlos realmente estivera ali? E quem era aquele homem?

Os anos passaram, e ele nunca mais viu a figura na neblina. Ainda assim, por muitas noites, sonhou com aquele ser.

Passou a vida afirmando ter estado com Carlos e vivido tudo aquilo. Talvez nunca tenha compreendido o que ocorreu naquela noite obscura. Sua história chegou aos jornais, transformando-se em relato estranho, entre o factual e o lendário.

Mas Edevaldo jamais encontrou respostas.

Ou talvez tenha encontrado — no fim, no instante de sua morte.


Autor: Arthur Luiz Peixer (escrito em 24 de abril de 2026). 

Nenhum comentário:

Postar um comentário