quinta-feira, 6 de novembro de 2025

ÓPERA XUCRÁ CABOCLA: TEATRO E VIVÊNCIA NO CONTESTADO

No dia 23 de outubro de 2025, durante a celebração da Semana do Contestado, no município de Lebon Régis (SC), ocorreu a exibição da Ópera Xucra Cabocla, uma parceria entre a diretora Márcia Paraiso, a equipe da Plural Filmes, a Escola de Educação Básica 30 de Outubro e a Associação Cultural Coração do Contestado. Nesse espetáculo, rememora-se a queda da cidade santa de Santa Maria, última das vilas caboclas, invadida e destruída por forças militares na Páscoa de 1915, ao final do conflito do Contestado.

A escolha de representar o episódio por meio da atuação de crianças e adolescentes da EEB 30 de Outubro, utilizando-se do cenário teatral, da iluminação e da musicalidade, foi extremamente acertada. Afinal, a região do Contestado é reconhecida por suas festas, religiosidade e canções — elementos que atravessam as décadas e compõem uma memória que, embora tenha sido gradualmente esquecida, hoje é retomada com vigor.

Destaca-se, ainda, o papel articulador da Associação Cultural Coração do Contestado, que atuou ativamente na captação de recursos e na coordenação do trabalho coletivo. A entidade foi responsável, entre outras ações, pela produção dos belíssimos cenários, pela organização do espaço de exibição e pela mobilização para que as escolas do município pudessem assistir à peça, além de convidar diversos produtores culturais da região para prestigiar o espetáculo.

Além disso, uma ópera grandiosa como essa, marcada por uma proposta ousada, evidenciou o envolvimento da comunidade, da escola, de instituições públicas e de inúmeros colaboradores externos — entre estudantes, docentes e artistas de várias localidades, tanto de dentro quanto de fora do território contestado. Isso demonstra que a lembrança do conflito não pertence apenas ao passado, mas permanece carregada de significados no presente, reafirmando a importância de sua representação.

Presentificar o Contestado por meio da arte é reafirmar a memória de um povo historicamente marginalizado pelo Estado e que agora reivindica seu espaço — antes ocupado quase exclusivamente por descendentes de europeus na região. O caboclo, sua cultura, práticas e vivências não residem no passado, mas estão profundamente enraizados no presente, promovendo identificação, conexão e o resgate das origens desse território, incluindo as contribuições de povos negros e indígenas.

As luzes, a música e o talento das crianças de origem cabocla constituem um marco simbólico dessa retomada e da reivindicação de uma memória coletiva. O espetáculo resgata o espaço público e cultural do município, tornando-se um exemplo de incentivo à valorização histórica e artística de toda a região. O cuidado com os detalhes — como a reconstrução das moradias, dos instrumentos, das acomodações e das representações cênicas — revela a relevância desse movimento na construção da identidade dos diversos sujeitos envolvidos na criação da obra.

Desse modo, é fundamental destacar que memória e história exercem poder e influência. Retomar uma narrativa comunitária é demonstrar a força coletiva de um povo que busca afirmar-se e ressignificar sua trajetória. A reinterpretação dessa narrativa constitui, portanto, um exercício do presente: utiliza o conflito do Contestado como instrumento para compreender-se no agora, com todas as suas complexidades, e para debater temas contemporâneos como desigualdade social, violência de Estado, desemprego, misoginia, racismo e discriminação — questões ainda persistentes em nossa região.

Chamar de “xucra” a Ópera Cabocla é, também, um gesto de ressignificação: um termo outrora pejorativo torna-se símbolo de resistência e orgulho daqueles que antes lutaram por existir e que, ainda hoje, continuam lutando para viver com dignidade.


Fotos da exibição do dia 23 de outubro no período da tarde (acervo do autor)











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