No dia 23 de
outubro de 2025, durante a celebração da Semana do Contestado, no município de
Lebon Régis (SC), ocorreu a exibição da Ópera Xucra Cabocla, uma
parceria entre a diretora Márcia Paraiso, a equipe da Plural Filmes, a Escola
de Educação Básica 30 de Outubro e a Associação Cultural Coração do Contestado.
Nesse espetáculo, rememora-se a queda da cidade santa de Santa Maria, última
das vilas caboclas, invadida e destruída por forças militares na Páscoa de
1915, ao final do conflito do Contestado.
A escolha de representar o episódio por meio da atuação de crianças e adolescentes da EEB 30 de Outubro, utilizando-se do cenário teatral, da iluminação e da musicalidade, foi extremamente acertada. Afinal, a região do Contestado é reconhecida por suas festas, religiosidade e canções — elementos que atravessam as décadas e compõem uma memória que, embora tenha sido gradualmente esquecida, hoje é retomada com vigor.
Destaca-se,
ainda, o papel articulador da Associação Cultural Coração do Contestado, que
atuou ativamente na captação de recursos e na coordenação do trabalho coletivo.
A entidade foi responsável, entre outras ações, pela produção dos belíssimos
cenários, pela organização do espaço de exibição e pela mobilização para que as
escolas do município pudessem assistir à peça, além de convidar diversos
produtores culturais da região para prestigiar o espetáculo.
Além disso,
uma ópera grandiosa como essa, marcada por uma proposta ousada, evidenciou o
envolvimento da comunidade, da escola, de instituições públicas e de inúmeros
colaboradores externos — entre estudantes, docentes e artistas de várias
localidades, tanto de dentro quanto de fora do território contestado. Isso
demonstra que a lembrança do conflito não pertence apenas ao passado, mas
permanece carregada de significados no presente, reafirmando a importância de
sua representação.
Presentificar
o Contestado por meio da arte é reafirmar a memória de um povo historicamente
marginalizado pelo Estado e que agora reivindica seu espaço — antes ocupado
quase exclusivamente por descendentes de europeus na região. O caboclo, sua
cultura, práticas e vivências não residem no passado, mas estão profundamente
enraizados no presente, promovendo identificação, conexão e o resgate das
origens desse território, incluindo as contribuições de povos negros e
indígenas.
As luzes, a
música e o talento das crianças de origem cabocla constituem um marco simbólico
dessa retomada e da reivindicação de uma memória coletiva. O espetáculo resgata
o espaço público e cultural do município, tornando-se um exemplo de incentivo à
valorização histórica e artística de toda a região. O cuidado com os detalhes —
como a reconstrução das moradias, dos instrumentos, das acomodações e das
representações cênicas — revela a relevância desse movimento na construção da
identidade dos diversos sujeitos envolvidos na criação da obra.
Desse modo, é
fundamental destacar que memória e história exercem poder e influência. Retomar
uma narrativa comunitária é demonstrar a força coletiva de um povo que busca
afirmar-se e ressignificar sua trajetória. A reinterpretação dessa narrativa
constitui, portanto, um exercício do presente: utiliza o conflito do Contestado
como instrumento para compreender-se no agora, com todas as suas complexidades,
e para debater temas contemporâneos como desigualdade social, violência de
Estado, desemprego, misoginia, racismo e discriminação — questões ainda
persistentes em nossa região.
Chamar de
“xucra” a Ópera Cabocla é, também, um gesto de ressignificação: um termo
outrora pejorativo torna-se símbolo de resistência e orgulho daqueles que antes
lutaram por existir e que, ainda hoje, continuam lutando para viver com
dignidade.
Fotos da exibição do dia 23 de outubro no período da tarde (acervo do autor)

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