Os quadrinhos sempre refletiram os dilemas e as lutas
sociais da época em que foram constituídos. Desde os primeiros dias das
histórias em quadrinhos até a atualidade, essas narrativas coloridas têm sido
um espelho para diversos eventos históricos ocorridos na sociedade
contemporânea.
Nos anos 1960 e 1970, uma era marcada pelo fervor do
movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, surgiram personagens como
Luke Cage e a série "X-Men", ambos refletindo as lutas e os desafios
enfrentados pelas minorias. Luke Cage, o herói de aluguel, representava a
ascensão dos negros em uma sociedade que tentava mantê-los à margem. Já os
mutantes da série "X-Men" eram uma metáfora poderosa para as
experiências daqueles marginalizados por causa de sua diferença, uma analogia
clara à luta contra o racismo e a discriminação.
Além dos diversos debates e avanços produzidos durante as décadas
de 1960 e 1980, foi nos anos 1990, com o surgimento da Milestone Media, que se proporcionou
um maior debate dentro do mundo corporativo dos quadrinhos ocidentais. Fundada
por Dwayne McDuffie, um roteirista negro, A editora tinha como proposito dar
voz e espaço para artistas de minorias étnicas. A Milestone foi um ponto de
diversidade em um mar de homogeneidade do mercado estadunidense dos quadrinhos.
Seus personagens, como "Hardware", "Icon" e o icônico
"Super Choque", não apenas representavam uma multiplicidade de
origens étnicas, mas também abordavam questões sociais urgentes, como racismo e
violência urbana.
McDuffie no final dos anos 1980 (Fonte: Wikipédia).
Super-choque é um dos personagens de maior sucesso da
Millestone Media. A série produzida pela Warner em 2003 traz não somente um
jovem periférico como personagem principal, mas suscita debates relacionados ao
porte de armas, violência, bullying, racismo, etc. Muito embora o recorte de
análise aqui proposto seja o das histórias em quadrinhos dos EUA, cabe
ressaltar que a geração millenials no Brasil cresceu assistindo não só super
choque, como Liga da Justiça, série a qual Dwayne McDuffie fez parte. Nesse
sentido, é importante entender as HQs como um reflexo da cultura, os quais
foram problematizados diversas vezes e contribuem para tornar a obra mais
contemporânea do que nunca.
Super-Choque (Fonte: O Hoje).
O trabalho de McDuffie torna-se um caminho para compreender
como as HQs não são apenas entretenimento, mas uma forma de trazer debates
políticos e sociais relacionados a representatividade, resistência, lutas de
classes e a opressão colonial. A representação de personagens negros nos
quadrinhos é a ponta do iceberg de toda uma indústria, que muitas vezes usa
dessas pautas com o intuito de obtenção de lucro e exploração do trabalho de
roteiristas, desenhistas e demais profissionais que produzem as histórias
veiculadas por grandes corporações.
Mangás são nada mais, nada menos, do que histórias em quadrinhos japonesas, criadas em formato preto e branco, que comparando com a cultura ocidental, são lidos de trás para frente, tanto nas paginas, quanto nos balões de dialogo.
As primeiras histórias em quadrinhos japonesas com personagens fixos, que logo em seguida criariam a denominação mangá, surgiram em 1901 com o nome “Tagosaku To Mokubê No Tokyo Kenbutsu (“A Viagem a Tokyo de Tagosaku e Mokube”) (MOLINÉ, 2004, p. 19). A editora pioneira na publicação dos Mangás foi a Kodansha, com o mangá “Shonen Club” de 1914.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a industria dos mangás se viu obrigada a começar do zero. Surgiu, dessa forma, um desenhista que viria a ser um dos maiores do Japão. Ozamu Tezuka, que admirava os desenhos norte americanos, e foi um dos responsáveis pelos olhos grandes como característica principal dos desenhos japoneses.
Existem vários tipos diferentes de mangá: O Shonen, que seriam os mangás destinados a rapazes, com histórias como InuYasha, Bucky, Cavaleiros do Zodíaco, que são recheadas de ação, etc; mangás destinados ao publico feminino, os chamados Shoujo, que são história mais cheias de romantismo, como Sailor Moon por exemplo (não sendo uma regra, mas que reforça estereótipos de gostos de meninos e meninas); Os mangás direcionados a adultos, como os Ecchis, que são mangás com conteúdo sexualizado, e os similares a pornografia chamados Hentais, além do seinen, que teriam histórias mais psicológicas, como o mangá "Monster" por exemplo.
Como desenhistas mais famosos, Masami Kurumada, autor da famosíssima saga sucesso dos anos 80 “Cavaleiros do Zodiaco”(“Saint Seiya” no original), Akira Toriyama, autor de “Dragon Ball Z”, Kazuki Takahashi, esse mais recente, autor da série “Yu-Gi-Oh!”, Osamu Tezuka, autor de "Astroboy" e "Kimba, o Leão Branco" (que inspirou a criação hollywoodiana do Rei Leão), Yoshihiro Togashi, autor de "Hunter x Hunter" e "Yu Yu Hakusho", entre outros autores. As maiores editoras existentes hoje nesse ramo são a Kodansha, a Shueisha e a Shogakugan. Normalmente, quando vem ao Brasil, essas revistas vão para editoras como Escala, Conrad, JBC, Panini e New Pop.
Os mangás penetraram em nossa cultura, no final dos anos de 1980 inicio da década de 90, com séries animadas Exibidas na TV, que foram retiradas dos mangás para as telinhas, e que se consagraram como “Cavaleiros do Zodiaco”, “Yu-Yu-Hakusho”, “Shurato”, “Dragon Ball Z”,que trouxeram consigo suas versões mangás, que difundiram rapidamente. Dessa forma, o mercado dos mangás aqueceu no país, assim foram surgindo os fissurados por mangás e congressos sobre os HQs orientais, até periódicos especializados no gênero, como o “Anime-Do” e a revista “Neo Tokyo”, além do advento dos eventos como o "Animê Friends" e a "Comic Con" que engloba fãs de todo tipo de elementos da cultura pop e Geek.
Atualmente os Mangás estão incorporados a nossa cultura, fazendo com que se possibilite conhecer elementos da cultura oriental e a importância de sua propagação, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, onde os japoneses utilizaram as HQs como uma maneira de contar as diversas visões dos doloridos fatos violentos do conflito (como no filme "Túmulo dos Vaga-lumes" e "Gen Pés Descalços) fazendo um processo diferente dos Estados Unidos, que como vencedores da guerra, entraram no conflito ideológico com a União Soviética e usaram as Histórias em Quadrinhos como instrumento de propaganda do modo de vida capitalista estadunidense.
Ao percebermos as nuances da difusão dos mangás no ocidente, entendemos que além de simples Histórias em Quadrinhos que tiveram o poder de influenciar gerações de crianças e adolescentes, e hoje são principalmente perpetuadas internet afora, são também elementos artísticos culturais capazes de nos fazer conhecer outras culturas, modos de pensar e principalmente as lógicas culturais de convivência social e cultura. Olhar criticamente o processo global de produção de animes e mangás nos faz perceber o poder de construir raciocínios críticos e questionadores se confrontados com o período e contextos históricos que foram produzidos.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
- GRAVETT, Paul. Mangá, Como o Japão Reinventou os Quadrinhos. Editora Escala, 2004.
- MOLINÉ, Alfons. O Grande Livro dos Mangás. Editora JBC, 2004.
VEJA O VÍDEO DO CANAL ENSINARTHUR SOBRE AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E SUA RELAÇÃO COM A APRENDIZAGEM HISTÓRICA: