quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Considerações sobre as Ilustrações do Combate de Rio das Antas de Hassis

    Em 1984, o artista Hassis (1926–2001) produziu mais de 78 desenhos a nanquim em bico de pena. Como afirma Marli Auras, “esse precioso conjunto de desenhos trata de sintetizar, com objetividade, a perspectiva pela qual Hassis compreendeu a formação da Guerra do Contestado” (Hassis & Auras, 2023, p. 9). Essas ilustrações foram elaboradas como esboços para a criação de um painel de 36 m², dividido em sete módulos, nos quais o artista construiu uma sequência narrativa sobre o desenrolar do conflito do Contestado. Originalmente, o painel foi exposto no Terminal Rita Maria, em Florianópolis (SC), e posteriormente incorporado ao acervo do Museu do Contestado, na cidade de Caçador (SC), onde permanece até hoje.

Partes do painel de 36m² intitulado "Contestado - Terra Contestada" de Hassis (Museu Histórico e Antropológico da Região do Contestado - Caçador/SC - foto acervo do autor).

Dessa forma, o presente texto tem por objetivo analisar duas das ilustrações em nanquim realizadas por Hassis para a execução desse trabalho: Combate de Rio das Antas – Jagunços atacam colonos e Combate de Rio das Antas – Queima de cadáveres dos jagunços.

Assim como as outras 76 ilustrações, essas imagens estão reunidas na recente obra publicada pela Editora da UFSC, Guerra do Contestado Ilustrada, escrita por Marli Auras. Na publicação, cada episódio do conflito é apresentado em textos curtos, acompanhados das ilustrações que materializam visualmente os acontecimentos narrados. No trecho em que se encontram os desenhos analisados neste estudo, destacam-se os principais elementos do evento: a morte de Francisco Alonso de Souza e a queima dos corpos dos “jagunços”. O episódio representado é descrito tanto por Peixoto (1920) quanto por Queiroz (1981), e refere-se a um dos ataques ocorridos durante a chamada “ofensiva rebelde”, fase em que, após a reorganização do movimento caboclo do Contestado em várias cidades santas, houve um avanço contra as forças governamentais e os coronéis. Tal ofensiva configurou uma resposta direta ao massacre ocorrido em Taquaruçu (fevereiro de 1914) e aos sucessivos ataques a Caraguatá (entre março e maio do mesmo ano).

Nesse contexto, o avanço caboclo ficou marcado pelo assalto a Curitibanos, pelo ataque à madeireira de São João dos Pobres (atual Calmon/SC) e por sucessivas incursões em diversas vilas, nas quais os ataques eram previamente anunciados com o intuito de evitar mortes em combates. Rio das Antas, portanto, foi alvo de um desses ataques, que se destacou pela resistência dos colonos e pela morte do líder caboclo Chiquinho Alonso.

Hassis retrata, no desenho do ataque jagunço (figura 1), os imigrantes em primeiro plano, sugerindo que estavam em posição de emboscada, aguardando o ataque dos caboclos do Contestado. Além daqueles próximos à cerca, observa-se, dentro da casa, dois imigrantes representados. Chama a atenção o fato de que não aparecem apenas homens, mas também mulheres — duas delas em primeiro plano — que aparentam ser crianças ou adolescentes empunhando armas.

Figura 1: Imagem do desenho em nanquim de Hassis intitulado "Combate do Rio das Antas - Jagunços Atacam Colonos" (1984 - Fonte: Acervo Estação Contestado).


    Essa representação pode estar associada ao relato feito por Peixoto e Queiroz sobre uma jovem armada com uma carabina que teria sido morta durante o ataque, episódio que, na memória popular do município de Rio das Antas, causa profunda comoção. Tal narrativa foi amplamente utilizada para reforçar a imagem dos seguidores de José Maria como cruéis e violentos. Ao fundo, nota-se a ambientação rural, com plantações e araucárias que simbolizam o território dos colonos. No centro da composição, destacam-se bandeiras com cruzes, representando os caboclos surpreendidos pelos imigrantes.

Na segunda imagem (figura 2), ambientada no mesmo local do conflito, mas agora vista da perspectiva da casa, observam-se, ao fundo, os corpos dos caboclos sendo queimados. Segundo Queiroz (1981), os corpos dos insurgentes teriam sido colocados em uma grande fogueira, enquanto os dos imigrantes foram devidamente sepultados. Simbolicamente, essa diferença pode representar o desprezo pelos inimigos, considerados indignos de um enterro cristão. Tal gesto sugere a desumanização dos caboclos — talvez uma tentativa de esvaziar a culpa por suas mortes, justificando sua execução como moralmente aceitável. Ainda assim, a maioria dos colonos fugiu do local, temendo as possíveis consequências legais de suas ações.

Figura 2:  Imagem do desenho em nanquim de Hassis intitulado "Combate do Rio das Antas – Queima dos Cadáveres Jagunços" (1984 - Fonte: Acervo Estação Contestado).


Dessa maneira, o presente texto buscou levantar diferentes hipóteses sobre a construção dessas ilustrações. As questões e interpretações aqui apresentadas suscitam análises mais profundas, que poderão ser desenvolvidas em pesquisas futuras. Destaca-se, portanto, que a obra de Hassis representa um marco importante na compreensão da Guerra do Contestado, pois, por meio de sua arte, o autor materializou a violência e o processo de marginalização vividos pelos caboclos. Interpretar suas imagens hoje permite reconhecer nelas não apenas um valor estético e histórico, mas também pedagógico — ao estimular a reflexão crítica e a análise simbólica de um passado ainda presente na memória coletiva da região.

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